“Ventura”

Donos de si
“Ventura” confirma a qualidade da banda em fazer belas composições

Os Los Hermanos trocaram uma consagração de público, com a música “Ana Júlia” (que estourou nas rádios em 99), por uma consagração de crítica, com o lançamento do “Bloco do Eu Sozinho”, em 2001. Das 250 mil cópias vendidas no primeiro disco, passaram para pouco mais de 30 mil no segundo. Isso sem contar todo o perrengue com a Abril Music, que tachou o disco de “não comercial” e queria que fosse feita outra gravação.

Mas o grupo bateu o pé e brigou com a gravadora. Resultado: tiveram que refazer a mixagem do disco com outro produtor. Sofreram depois com a falta de vontade da gravadora em divulgar melhor o trabalho.

Embora tenha perdido grande parte do público do primeiro disco (o que, se a gente for pensar, foi até bom), com o segundo disco a banda conseguiu um público, mesmo que “pequeno”, fiel e fanático, que acompanha a banda de perto, através do site (www.loshermanos.com.br) e publicações especializadas. E que sabe todas as letras de cor.

E o tal segundo disco foi um marco no pop brasileiro. Sem exageros. Há tempos não se via uma banda tão inventiva, madura, emblemática (desde Mutantes, talvez?). Foi a mistura criativa de samba, marchinhas, indie rock, música circense, ska e uma boa dose de melancolia que com certeza irritou os produtores da Abril Music e trouxe os verdadeiros fãs da banda – um público mais esperto, ligado em cultura pop.

Um caso a parte são as letras da banda, que funcionam bem se forem apenas lidas (uma espécie de “prosa curta”), fora do formato canção (e algumas ainda não contam com refrão). Não é a toa que a comparação entre Marcelo Camelo com Chico Buarque é feita a torto e a direito por aí.

E “Ventura”, o terceiro disco, lançado ano passado, nada tem de continuação do anterior. Só confirma a qualidade da banda em fazer boas músicas e letras. O disco é excepcionalmente belo e confirma de vez Rodrigo Amarante como bom letrista (“Último Romance”), ao lado de Marcelo Camelo.

“Ventura” é mais direto e cru que o “Bloco”, e abraça de vez os “perdedores”, como na ótima letra de “O Vencedor”: “Eu que já não sou assim/ muito de ganhar/ junto as mãos ao meu redor/ Faço o melhor que sou capaz/ só pra viver em paz”.

Na última música, “De onde vem calma”, o espírito da banda, sintetizado: “Eu não vou mudar não/ eu vou ficar são/ mesmo se for só/ não vou ceder”.

Leia entrevista com Rodrigo Amarante.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 22, abril de 2004)