“Hail to the Thief”

A volta das guitarras e do senso pop
“Hail to the Thief”, sétimo disco do Radiohead, coloca a banda inglesa novamente onde já esteve: no topo

O Radiohead, após seu terceiro disco, o aclamado “Ok Computer” (97), foi alçado no panteão da música pop como a “melhor banda do mundo”. De tão bajulados pelos fãs e imprensa, quase desistiram de fazer música. Interromperam a turnê no meio do caminho. Fugiram dos fãs. Fugiram da imprensa. Fugiram do sucesso. Desapareceram completamente e (quase) não foram encontrados. Esse era o Radiohead após sua obra-prima: uma banda em frangalhos, num imenso impasse criativo. Impasse que levou seu líder, Thom Yorke, a ir para estúdio fazer tudo diferente do que vinham fazendo.

“Kid A”, lançado em outubro de 2000, era o prenúncio de que a banda dos velhos tempos de “The Bends” (95), com as guitarras no talo e canções pop, não existia mais. As guitarras foram limadas. No lugar, entrou a eletrônica e barulhos esquisitos. A idéia era fugir do convencional. “Amnesiac” jogou a pá de cal: o disco era um “Kid A” mais denso e menos pop (com algumas guitarras, porém tímidas). O sucesso e a crítica, esses serezinhos que corrompem os egos dos artistas, foram minguando. Thom Yorke não estava nem aí, quanto menos sucesso e menos pressão, melhor para ele. E dane-se a crítica e os fãs, que só o chamavam de gênio e não deixavam a banda em paz.

E aí a poeira baixou. O impasse criativo acabou e a pressão foi-se embora. A neura de “gênio” de Thom Yorke se esvaiu e o Radiohead pôde então fazer um álbum com mais tranqüilidade. Aí a coisa voltou a fazer sentido. “Hail to the Thief” (EMI) traz de volta as guitarras, praticamente ausentes nos dois últimos discos da banda (sem contar o ao vivo, “I Might Be Wrong”). Esse novo disco é uma viagem de Thom Yorke e banda aos primórdios baladeiros e a seu passado recente cheio das experimentações eletrônicas. É um grande disco: uma síntese do que aconteceu de melhor na carreira (mas sem se auto-plagiar). As guitarras e as batidas eletrônicas convivem em harmonia. Mais: a banda está léguas à frente do pop produzido atualmente. O “thief” (ladrão) do título do álbum vem de um livro que contesta a eleição de George W. Bush para a presidência dos EUA. Boa parte das letras são politizadas. E Thom Yorke não está mais preocupado em fugir do convencional. Em entrevistas, disse que foi influenciado pelo compositor polonês Krysztof Penderecki, que diz que a música se assenta em formas antigas. E é aí que o novo disco acerta a mão: ao não se preocupar em fazer música de “vanguarda”.

“Hail to the Thief” é fruto do amadurecimento da banda, que não exclui as guitarras nem a eletrônica. “2 + 2 =5”, a primeira música, mostra resquícios do experimentalismo de outrora, mas cai nas guitarras lá pro meio. Com um acorde circular de guitarra e uma bateria fantasmagórica por trás, a música culmina num dos melhores refrões do disco. Casa as belas melodias dos velhos tempos de “The Bends” e “Ok Computer”. Empolgante, já prepara terreno pro que virá a seguir.

“Sit Down. Stand up.” é carregada de tons eletrônicos. No final, um turbilhão de barulhinhos e efeitos preenche a música. “Sail to the Moon” é uma balada triste, que lembra o lado dark de “Ok Computer”. O piano corre solto.

“Go To Sleep” começa com um violão palhetado cheio de manha, que vai crescendo com um baixo à medida que a música vai correndo esperta e marota. Uma batida que empolga e uma guitarra vibrante surgem logo após o refrão. Tem até solo, meio esquisito, mas vá lá. Até os solos voltaram!

“We Suck Young Blood” é baseada em piano e num baixo que acompanha a voz angustiada e arrastada de Yorke (“I Will” segue na mesma). Palmas dão um tom gótico.

“There There” é o primeiro single do disco e é uma belíssima música que começa com uma bateria tribal. Logo depois um dedilhado de guitarra hipnótico e fantástico surge. A guitarra de Colin Greenwood mostra sua potência lá pro final, solando e fazendo o que o Radiohead não se permitia até pouco tempo atrás: música com apelo pop “fácil”. Maravilha de música.

O começo de “A Punch up at a Wedding” evoca a clássica “Come Together” dos Beatles. Mais pra frente, uma guitarrinha safada dá um tom funkeado à música, que já nasceu groovy. “Myxomatosis” é doentia: uma guitarra rasgada e totalmente distorcida percorre a canção inteira (só parando no “refrão”). A voz de Yorke é insana.

“Scatterbrain” é outra balada com guitarra dedilhada no começo e voz limpa. Linda, é a mais doce do disco. “Wolf at the Door”, a última, começa com Thom Yorke falando, falando, falando e ele segue falando até o início do refrão. De chorar de bom.

No saldo geral, um excelente disco, embora com pequenas derrapadas na eletrônica. No final, tudo certo.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 13, junho de 2003)