Rádio Muda

Uma verdadeira zona autônoma
Rádio Muda, cravada no coração da Unicamp, é uma rádio bem diferente

A Muda é uma rádio muito diferente de todas as outras que você provavelmente já escutou. Cravada há 11 anos dentro de uma caixa d’água no campus da Unicamp (há treze no ar), a Muda reflete um pouco o espírito dos estudantes da universidade, principalmente os da área de humanas – é anárquica, não tem linha editorial definida, toca vários estilos. Uma zona autônoma temporária, diriam alguns, usando o conceito do pensador Hakim Bey.

Além disso, a rádio não possui concessão de funcionamento. “Isso nos coloca na posição de desobediência civil. Porém, não causamos nenhuma interferência, pois trabalhamos com equipamentos homologados pelo próprio ministério das comunicações, além de ocuparmos uma freqüência livre”, conta Thiago Novaes, 26, um dos integrantes do coletivo.

Teoricamente, qualquer um pode participar da rádio. “A Muda é aberta à participação de qualquer pessoa. Basta comparecer à reunião do coletivo da rádio, que se reúne todas as segundas-feiras no Teatro de Arena da Unicamp, em frente à caixa dágua”.

A rádio tem cerca de 30 km de alcance, 45 metros de antena, 50 watts de potência e é uma rádio livre. Nem legal, nem ilegal. “A lei de RadCom (1998) é inaplicável tecnicamente, ao prever 1km de alcance, com 25W de potência e 30 metros de antena”, conta Novaes. “Se de um lado não temos concessão do Estado, de outro não precisamos dela!”

A Muda, com cerca de 250 programadores e 120 programas no ar, não tem fins lucrativos, é autogerida e financiada através de doações. Como não há linha editorial definida, cada programador é diretamente responsável pelo conteúdo que veicula. Aí é que a coisa complica, pois muitos não têm o mínimo “dom” pro negócio e um mínimo de bom senso – não é raro sintonizar a rádio e ouvir palavrões, gritarias, defeitos técnicos etc. etc.

“É claro que a esculhambação e as irresponsabilidades não são bem vistas por muitos, dentro e fora da rádio… Mas o caso é que esse é o preço por não termos mais veículos de comunicação abertos, onde se poderia dar vazão a esses destemperos”. “Enfim, liberdade criativa dá bons e maus frutos…”, finaliza Novaes.

E quem ouve a Muda? Em 2001, uma pesquisa feita entre graduandos da Unicamp indicava que “cerca de 11% dos alunos preferem ouvir a Muda, enquanto alunos que preferem as outras rádios não passou de 10% para cada. Por mais que a audiência das outras juntas seja maior que a nossa, a Muda pelo menos é a rádio preferida”, explica o DJ Plâncton.

O site oficial da rádio é http://muda.radiolivre.org e o telefone de lá é o (19) 3387-7908.

Publicada originalmente na revista Semana 3 (ed. 29, março de 2005)