Perfil: Lanny Gordin

O primeiro ácido que Lanny Gordin tomou foi em uma excursão com o cantor Jair Rodrigues, no início de 1972. Quando o efeito bateu, Lanny sentiu-se em outro mundo, numa espécie de nirvana. “Começou aí a minha viagem pro interior de mim mesmo. Foi sensacional”, relembra. A excursão havia começado em Londres e passado por Estocolmo, Amsterdã, Lisboa, Paris e outras cidades européias. Lanny vivia o auge de sua carreira de guitarrista. Após a turnê, voltou a Londres para descansar. O ácido lisérgico foi presença constante nessa excursão.

Quando voltou para São Paulo, Lanny continuou saboreando o ácido. “Eu queria ver aquelas cores de novo, aquele outro mundo. Eu andava na rua à noite e parecia que eu estava em outro mundo. Parecia que eu estava no céu.” Em uma dessas viagens lisérgicas, veio a bad trip, em 1974. Das cores às sombras. Do céu ao inferno. Tudo isso em algumas horas. “Comecei a pirar da cabeça. Eu não entendia o que estava acontecendo.” Lanny sentia-se como um espírito consolador, um Jesus Cristo, “o que é normal para quem toma droga”. “Mas aquilo não era real, era droga, uma pilulazinha que dura 12, 15 horas e que custa alguns dólares.”

Depois da overdose, a internação em sanatórios (“Só tinha louco!”) e a experiência de ter passado por tratamentos nada convencionais, como o eletrochoque. “O tratamento era muito bom, os médicos, muito gentis. Eu adorava o tratamento, mas me entucharam de choque elétrico, de insulina, de remédios. Eu andava que nem um zumbi, um morto-vivo. E a coisa mais importante que me salvou da piração foi a ajuda de Deus e a minha música.”

Nesse período de internações, os dedos das mãos de Lanny estavam duros, sem flexibilidade; quase não dava pra tocar violão. Mas ele não conseguia deixar a música de lado. Pela falta de mobilidade dos dedos, o morto-vivo Lanny só conseguia tocar uma única nota, um mísero dó maior. Tal qual Syd Barret, o gênio fundador do Pink Floyd, a meteórica carreira de Lanny praticamente terminara aí, destruída pelo LSD.

Sempre que alguém pergunta a Lanny – e isso é freqüente – se houve arrependimento com relação ao uso de drogas, ele diz não de forma enfática. A resposta comum é: “Fez parte da minha vida.” Depois, deita explicação: “Eu tive o livre arbítrio de tomar a droga, por experiência e pra saber o que era. Eu continuei tocando e não parei de tocar. Teve uma época que eu parei de tocar, por que eu estava ligado em ligação transcendental, com o mundo espiritual. Eu sou meio médium. Eu já entrei em estado alfa, o mundo dos espíritos. A gente se comunica por telepatia. Allan Kardec explica isso muito bem. Eu saía do meu corpo e ouvia vozes. Uma mulher espiritual, invisível, uma vez me falou: ‘Cê tá louco!’ Aí eu pensei: ‘Eu vou falar com essa mulher.’ E falei: ‘Só Deus vai me ajudar.’ E a mulher calou a boca. E eu ouvia uma outra voz de um homem espiritual me perguntando o que eu queria. Aí eu pensei, na hora me veio na cabeça: ‘Eu gosto muito de groselha’. Aí eu falei pro cara: ‘Será que não dá pra você me arranjar um copo de groselha?’ (Risos) E aí o cara falou que não ia dar. ‘Olha, a gente não tem o dom de materializar… Mas você quer ouvir um pouco de música?’ Aí ouvi uma música parecida com a de uma orquestra sinfônica. Eu ouvi essa música e fiquei extasiado. Puta, que música linda.”

“Eu me lembro que estava em Ilha Bela, com a minha família, e entrei nesse estado alfa, e eu tive uma visão de um espírito. Uma perna era maior que a outra, um rosto meio deformado; aí eu me comuniquei telepaticamente. Eu perguntei o que ele estava fazendo, o que ele gostava de fazer. O espírito falou: ‘Eu gosto de ouvir o som da descarga da privada’”.

Lanny solta uma gargalhada.

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O maestro Rogério Duprat, que produziu diversos artistas tropicalistas como os Mutantes, já classificou Lanny como o maior guitarrista brasileiro e sempre dizia que o único músico que podia tocar do que jeito que quisesse no estúdio era ele.

Jards Macalé disse, em 2000, ao extinto site “Cliquemusic”:
– No cotidiano com ele, meu violão mudou. Além de ter um talento enorme, o Lanny tinha um violão muito peculiar, muito rico. Ele é o que mais se aproxima de Jimi Hendrix. Lanny é uma das mais profundas e ricas musicalidades do Brasil. Quem quiser aprender a guitarra tem que ouvir Lanny Gordin.

No mesmo site, Chico César foi mais longe:
– Lanny Gordin é um primeiro-sem-segundo na guitarra brasileira.

O jornalista Cláudio Júlio Tognolli registrou, sobre o lançamento do primeiro disco solo de Lanny, em 2001:
– Talvez o único guitarrista brasileiro que tenha conseguido imprimir uma grife glamurosa ao instrumento tenha sido Lanny Gordin: você ouve e sabe que é ele tocando. E mais: Lanny faz um patchwork genial entre a bossa, o rock e o jazz, sem que pareça uma colcha de retalhos. Lanny opta pela sugestão, em vez de afirmar. Sua marca estará na forma, não no conteúdo. Se existe uma guitarra brasileira, ela se chama Gordin.

Em uma entrevista ao “Jornal da Tarde”, também em 2001, Sérgio Dias, guitarrista dos Mutantes e considerado um dos melhores do Brasil, disse ter aprendido muito com Lanny:
– Ele me ensinou 80% do que sei de harmonia quando fez para mim os arranjos de “Você Precisa Aprender a Ser Só”. O cara é maravilhoso.

Em um texto sobre o disco solo, o crítico musical Celso Pucci escreveu na “Folha de S. Paulo” o seguinte:
– A pegada lisérgica da guitarra de Lanny Gordin foi mola-mestra para a expansão sonora do tropicalismo. Sua incrível técnica, aliada a criatividade exuberante, o projetou de tal forma que Lanny chegou a ser considerado uma espécie de “Jimi Hendrix Caboclo”.

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As comparações entre Lanny e Jimi Hendrix sempre foram freqüentes. Outras palavras muito usadas para descrevê-lo: gênio, único, deus, ícone, lenda, mito.

Lanny desfilou sua guitarra em trabalhos de grandes nomes da música brasileira e fez arranjos que hoje são considerados clássicos, como os da música “Meu nome é Gal” (1969) e “Pérola Negra” (1971). No disco “Expresso 2222” (1972), de Gilberto Gil, criou harmonias e tocou em diversas faixas, como em “Back in Bahia” e “O Canto da Ema”.

No disco “Araçá Azul” (1972), de Caetano Veloso, o guitarrista dividiu a autoria da música “De Cara”, na qual fez um de seus solos mais inspirados. No disco “Build Up” (1970), de Rita Lee, ele dividiu com o mutante Sérgio Dias a guitarra. Com Jards Macalé, tocou baixo elétrico e violão em algumas faixas do disco “Jards Macalé” (1972). Lanny também marcou presença no cultuado “Brazilian Octopus”, clássico psicodélico lançado em 1969, que teve a participação de artistas como Hermeto Pascoal, Olmir Stockler e Nilson da Matta. Lanny tocou ou gravou também com Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia, Elis Regina, Jair Rodrigues, Chico César, Sarah Vaugham e Ravi Shankar.

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Os avós de Lanny Gordin são de ascendência russa e polonesa, mas ele nasceu em Xangai, na China, em 28 de novembro de 1951. Lanny e seus pais logo se mudaram para Tel Aviv, em Israel. Aos 6 anos, mudaram-se para o Brasil (primeiro Rio de Janeiro e depois São Paulo).

A música entrou na vida de Lanny através da avó, que o fazia estudar piano clássico. “Eu fingia que lia as partituras para a minha avó, mas na verdade eu tocava de ouvido. Minha avó sempre brigava comigo porque eu tocava muito alto”. “Toca mais baixo, Lanny! Você está destruindo o piano!”, dizia a avó.

Por volta dos treze anos, o pai lhe deu um violão e, pouco tempo depois, o garoto já empunhava uma guitarra. Aos 16 anos, tocava na boate do pai, a Stardust, que ficava na praça Roosevelt, centro de São Paulo. A esta altura, os estudos já não lhe faziam mais a cabeça. Seu pai então disse: “Você vai largar o colégio e vai ser músico, porque você já está se virando com música”.

A Stardust foi a verdadeira escola de Lanny. Mas o som tocado por lá era mais comercial, pra dançar. O pai de Lanny não gostava quando ele começava a solar e a fazer experimentações. Mas outros músicos que tocavam na casa, como Hermeto Pascoal, Eliarco Verde e Heraldo do Monte incentivavam Lanny a experimentar e a tocar do seu jeito. Era só o pai sair da boate para ele caprichar no fraseado experimental e psicodélico.

Um fato curioso: como Lanny era menor de idade, havia alguns cuidados a serem tomados na boate. Na portaria da casa havia um botão que acionava uma luz no palco e era o sinal de que uma batida do juizado de menores estava chegando. Lanny então corria para os camarins que ficavam no porão.

No quesito influências, as principais são os guitarristas Jimi Hendrix e Wes Montgomery e as bandas Beatles, Rolling Stones e The Cream. E Os Mutantes, é claro. Lanny conheceu o guitarrista Sérgio Dias antes ainda de a banda começar. A parceria foi fundamental em sua vida. Sérgio, ao lado de Pepeu Gomes, era com que mais Lanny gostava de tocar. “Nós amávamos musicalmente.”

Antes de ser descoberto pelos tropicalistas, Lanny fez parte das bandas The Cats, The Beatniks e Os Kantikus, entre outras.

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Alexander Gordin, 56 anos, é um sujeito alto, tímido, extremamente gentil, com um ar de cientista maluco e criança inocente. Traz no semblante e na voz seqüelas da bad trip, dos choques no sanatório e da esquizofrenia, doença diagnosticada depois da overdose. Em uma conversa, é comum ele se perder no raciocínio e perguntar em que ponto estava e, logo depois, dar gargalhadas. Há quem diga que Lanny passou por uma bad trip e nunca mais saiu dela.

Mas quando está com uma guitarra em mãos, é a concentração em pessoa. “Quando toco, me desligo de tudo ao redor. Sou só eu e minha guitarra, como se estivesse sozinho no centro do universo.”

Lanny descobriu que tinha esquizofrenia ainda nos anos 70 e até hoje luta contra a doença e a depressão. “Mas a esquizofrenia é pequena e não me domina.”

Em 1982, passados quase dez anos da bad trip primordial, Lanny ensaiou uma retomada na carreira, tocando ao lado de Arnaldo Antunes, na Banda Performática, liderada pelo artista plástico Aguillar; mas a empreitada não foi adiante. Em 1995, fez uma participação no primeiro disco da cantora paulistana Vange Milliet e, no ano seguinte, tocou no disco de Chico César (“Cuscuz Clã”). Em 1999, Jards Macalé o convidou para tocar no álbum “O Q Faço É Música”.

Durante esse tempo, o ganha-pão de Lanny era tocar em pequenos bares e dar aulas particulares de guitarra. Ele diz ter desenvolvido um método no qual ensina a pessoa a tocar todos os acordes possíveis e estudar sozinho. “É uma fórmula de combinação de dedos, é uma lógica matemática. Mas isso leva tempo, não é de uma hora pra outra, leva alguns anos. Eu ensino pros meus alunos isso, eles vêm em uma, duas aulas, e depois eles somem e dizem ‘ah, eu vou estudar sozinho agora’”.

Uma de suas manias é fazer gravações caseiras experimentais, usando o recurso de playback. Ele grava duas ou três camadas de guitarras separadamente e depois sola por cima, gravando o resultado final. Lanny diz também ter criado uma forma de transformar todo o som que ouve em música. “Eu não preciso ouvir músicas famosas; qualquer som que eu ouço, eu já entro no clima, eu transformo no som que eu faço com a minha guitarra.”

Lanny conta que chegou a morar na rua durante quase uma semana. “Eu dormi em banco de praça. Uma sensação de liberdade incrível. Eu queria ser independente”, diz, às gargalhadas, sublinhando o independente. “Larguei minha casa, toda a minha família, e fui sozinho, com meu saco e minha guitarra Vision. Quando eu tinha fome, eu ia pros bares suburbanos, eu andava muito a pé, eu falava ‘olha, eu estou com fome, eu não tenho nada, me dá alguma coisa pra comer’. E eles me davam pão com água. Nessa época, eu morava na casa do meu irmão. Eles (a família) entendiam, ‘o Lanny vai aprender como se virar, ele vai voltar um dia’. Eu ficava na avenida São João. Depois de uma semana, senti a barra, e pensei: ‘Vou voltar pra casa do meu irmão’. Antes disso, quando eu morava na rua, eu deixei a minha guitarra na avenida Rio Branco, porque ela já estava meio quebrada.”

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Luiz Calanca, proprietário da loja e selo musical Baratos Afins, foi um dos primeiros alunos do professor Lanny Gordin. No material de imprensa distribuído quando do lançamento do disco homônimo, ele relembra: “Logo na primeira lição, percebi que seu método não era o convencional ou que ele não tinha mesmo um método, mas que eu poderia aprender o que queria se eu também soubesse o que realmente queria. Resolvi então gravar as aulas, para depois poder ouvir e talvez tentar tocar junto. Fomos gravando, gravando… (…) Depois, ouvindo as fitas me dei conta de que estava diante de um material de cunho não apenas didático, mas fascinante e riquíssimo. Era tudo artesanal, melodias que se tornavam cada vez mais bela a cada audição, passei a ouvir continuadas vezes por dia durante semanas, não dava para esconder minha alegria.”

Calanca convenceu então o professor a gravar mais uma camada de guitarra e também violão e contrabaixo nas músicas. E assim saiu o disco, todo instrumental, sem grandes produções ou truques de estúdio. Ainda em 2001, Lanny, Guilherme Held e Zé Aurélio criaram o Projeto Alfa, que já lançou dois discos (“Volume 1” e “Volume 2”) pela Baratos Afins.

Neste 2007, Lanny se lançou em mais uma tentativa de relembrar os velhos tempos em que era reverenciado como o melhor de todos. O álbum “Duos” (Barraventoartes/Universal) traz Lanny tocando com grandes intérpretes, todos seus admiradores, das mais variadas estirpes, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Vanessa da Mata, Zeca Baleiro, Rodrigo Amarante, Edgar Scandurra, Jards Macalé, Chico César e Max de Castro. O disco vem sendo trabalhado também em shows na capital paulista. O produtor Glauber Amaral foi quem deu a mão que faltava para o trabalho sair e é quem assina a direção artística do CD e do show.

Perfil escrito no primeiro semestre de 2007, baseado em entrevista feita em 2005. Foto de Pedro Amatuzzi.