Barão Geraldo: uma cidade

Distrito com cara de cidade
Barão já foi um bairro de Campinas. Hoje, é um distrito. Mas um distrito diferenciado, com cara de cidade – com suas universidades, seu pólo tecnológico, centro comercial, teatros, bares e vida noturna agitada

Barão Geraldo é quase uma cidade. Atualmente com cerca de 50 mil habitantes fixos e 20 mil flutuantes (o IBGE apontou, em seu último censo, em 2000, 45.585 mil moradores), o distrito de Campinas tem hoje 15.893 residências (sendo 377 residências na área rural) e 12 condomínios fechados. Tudo isso espalhado em 72 bairros, 378 ruas e 18 avenidas. Votam por aqui quase de 22 mil eleitores.

Na região, são quatro universidades instaladas – Puc-Campinas, Facamp, Universidade São Francisco e a Unicamp, fundada em 5 de outubro de 1966 por Zeferino Vaz –, o que transforma o distrito em uma espécie de “pólo do saber” – e existe ainda o pólo de alta tecnologia, com mais de 150 empresas que fazem pesquisas no setor de informática e telecomunicações. A área onde está este pólo ocupa cerca de oito milhões de metros quadrados. Não é à toa que a região é conhecida como “o Vale do Silício brasileiro” – agregando o maior número de institutos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico do interior do Brasil. E está em estudo também a implantação do pólo II de alta tecnologia, que prevê uma área de 7 milhões de metros quadrados.

Se por um lado há o pólo tecnológico, Barão também é uma espécie de pólo cultural. Existem só aqui no distrito, por exemplo, 8 grupos experimentais de teatro (Lume, Boa Companhia, Sarau, Seres de Luz, Barracão, Matula, Grupo do Santo, Semente) e uma rádio livre, a rádio Muda – existente dentro do campus da Unicamp há 13 anos.

A sede geral da União do Vegetal está em Barão, no bairro Guará. A União do Vegetal, uma vertente do Santo Daime, é aquela do chá de ayahuasca (união do Mariri e da Chacrona).

Mas, nesses últimos anos, o distrito vem ganhando fama por sua agitação noturna. Só nos últimos três anos, mais de duas dezenas de estabelecimentos, entre bares e restaurantes, abriram suas portas em Barão Geraldo. O publico daqui, dizem, é excelente, aberto e receptivo. E, o mais importante, tem um alto poder aquisitivo.

Origens rurais
Mas toda essa agitação e progresso escondem um outro lado de Barão: a região rural e agrícola, considerada a mais produtiva da cidade. Há um sem-número de chácaras, fazendas, sítios e casas de veraneio, sobretudo nos bairros Guará, Village e Vale das Garças. E é lá onde existem pessoas que se mudaram procurando a paz da roça. Dona Fifa, 52, proprietária do restaurante Via Roça, mudou-se para o Village em 1989. Seis anos atrás, largou a loja que tinha no centro de Barão (Vovó Passou por Aqui), e passou a cuidar somente do restaurante, famoso por levar atrações de moda de viola todos os finais de semana. Fifa, campineira, morou em Minas Gerais algum tempo, tendo fazenda por lá. Voltou para Campinas por causa dos filhos. E, como precisava de um lugar para colocar seus animais, escolheu o Village. “Mas eu fui pro Village porque eu sou roceira mesmo”.

E isso sem contar a Vila São João, um pequeno bairro com características rurais no meio do distrito. Sem asfaltamento, com umas 60 casas, o lugar é ideal para quem gosta de um ambiente mais tranqüilo – com árvores, cães na rua, sem movimento –, mas não dispensa a praticidade de estar perto do centro.

Barão Geraldo começou, aliás, como um bairro rural, com fazendas de café e cana. Muitos dos que aqui moravam nas décadas de 1920 e 1930 tentavam vender o excedente da produção na cidade, como informa “Barão: História e Identidade”, trabalho desenvolvido na Unicamp, do historiador e jornalista Warney Smith.

E foi aí que Barão começou a se tornar uma espécie de “cidade” pelo contraste em relação à Campinas – ao menos no entender de parte dos seus moradores. Havia uma sensação de pertencimento a um lugar isolado do resto de Campinas – uma “naçãozinha”, formando uma espécie de “identidade contrastiva”, como explica Smith.

A elevação de Barão a distrito de Campinas, em 1953, deu-se quase como uma afirmação e legitimidade como população “não-pertencente” à Campinas. Hélio Leonardi e Guido Penteado Sobrinho eram os líderes locais à época da emancipação e agiam com “interesses de vizinhança”.
Tanto que Barão passou a ser conhecido pelos funcionários que passam pela Prefeitura a cada quatro anos como um “principado” – o principado de Barão Geraldo. E esse principado é o local onde há o progresso da cidade grande e a tranqüilidade de cidade do interior. A combinação desses fatores, acreditam muitos moradores, orgulhosos de onde vivem, é que faz do lugar um lugar único e especial.

Emancipação
Por tudo isso, existiu (e ainda existe) um grupo que quer a emancipação total de Barão Geraldo. São os que se consideram muito mais “baronenses” do que campineiros – dentre esses, boa parte de famílias tradicionais que em 1953 lutaram pela elevação a distrito. Depois dessa data, mais de 20 pedidos oficiais de emancipação já entraram na Assembléia Legislativa de Campinas.

Diz Smith: “Mesmo não sendo um ‘município’, Barão Geraldo configura-se, a meu ver, como uma ‘cidade’. Além de possuir uma base econômica que se reivindica própria do local, de possuir um bairro central organizado e de dezenas de bairros que circulam e se reivindicam em seu entorno, os moradores construíram uma história local própria, e muitos de seus moradores reivindicam uma identidade e uma naturalidade ‘baronense’ de pertencerem a Barão, no sentido de se diferenciarem daqueles moradores que vieram de outros municípios”.

O velho e o novo
O distrito parece ser cortado por uma linha imaginária, que divide a parte mais antiga e tradicional do distrito – região central e Santa Isabel – da região mais nova e moderna, por assim dizer – a Cidade Universitária, construída e loteada para servir de moradia aos alunos e professores da Unicamp.

O cruzamento dessa linha dá-se no início da avenida Santa Isabel, no centro do distrito – ali onde ficam as agências bancárias e uma das bancas de revistas mais velha de Barão, a Banca Central.

Na região mais antiga, há mais movimento nas ruas – crianças brincam, velhos ficam nas calçadas esperando o tempo passar. Há mais barulho também. Algumas casas têm até hortas nos seus quintais. E existem diversos botecões espalhados por essas bandas. As casas, algumas com carros estacionados em cima das calçadas, são (bem) mais simples se comparadas com a da parte mais rica.

Na parte nova é diferente. Se andarmos na Cidade Universitária, veremos ninguém ou quase ninguém nas ruas esburacadas dessa parte do distrito. O silêncio predomina. As casas são maiores, mais luxuosas – algumas têm piscinas e dezenas de cômodos. Não há muitos carros nas garagens – o pessoal costuma chegar do trabalho à noite. Parece existir uma identidade mais cosmopolita, globalizada e descentralizada regendo a vida dessas pessoas.

Publicada originalmente na revista Semana 3 (ed. 26, outubro de 2004)