Ricardo Antunes

Intelecto do trabalho
Ele é dos mais conceituados especialistas da área do trabalho no país. Professor titular de sociologia da Unicamp, Ricardo Antunes é um intelectual do trabalho, como frisa a cada momento durante entrevista concedida em sua casa ao Semana 3. “Fui convidado pelo Toninho [prefeito de Campinas, Antônio da Costa Santos, morto em 2001] para ser Secretário de Educação na sua gestão, mas não aceitei. Sou intelectual, tenho que pensar”. Antunes foi, durante 20 anos, um intelectual filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). Hoje não mais: “Me desfiliei há duas semanas [abril], porque não compartilhava mais as idéias com o PT”. Na entrevista, Antunes, que é autor, entre outros, de “Os Sentidos do Trabalho” (Boitempo Editorial) e “Adeus ao Trabalho?” (Ed. Cortez/Ed. Unicamp), falou sobre a política nacional e regional do PT, sobre a atual administração municipal e o atual momento da Unicamp e de outras instituições públicas de ensino superior

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
Silvio Anunciação

O desemprego é hoje um dos temas que mais preocupa o brasileiro…
O desemprego é, talvez, a questão crucial desta virada do século, tanto em escala mundial quanto no caso brasileiro. Pra se ter uma idéia, a população economicamente ativa do mundo é de mais ou menos 4 bilhões de pessoas. Mais de um bilhão estariam precarizados, desenvolvendo trabalhos parciais ou temporários, e quase 200 milhões estariam desempregados. E é muito duro contabilizar isso: tem o desemprego aberto e o desemprego oculto. No Brasil, por exemplo, capitais como São Paulo têm 20% de desemprego. A planta produtiva do passado recente era uma planta que o Chaplin fotografou genialmente no filme “Os Tempos Modernos”. Grandes fábricas concentradas, hierarquizadas, com milhares de trabalhadores. Por exemplo, a Wolksvagen do Brasil chegou a ter 44 mil trabalhadores nos anos 80. Os bancos chegaram a ter 1 bilhão. Essa grande estrutura teve que ser reduzida por uma crise de superprodução nos anos 70, um sinal de um esgotamento do sistema de produção tal como ele existia. E as empresas iniciaram um processo que eles chamam de “reestruturação do capital”, que significa reduzir significativamente força de trabalho vivo, ampliando maquinário técnico-científico. E tem a causa conjuntural. No Brasil, os governos desde 1990 praticam políticas neoliberais: privatização do capital produtivo estatal, desregulamentação financeira de modo que os capitais possam navegar livremente de país para país, desregulamentação das rotinas de trabalho em benefício, em última instância, dos países do norte. Isso se chamou de Consenso de Washington. Os governos sobem e acabam tendo que garantir o pagamento da dívida externa. Por exemplo, por que o governo Lula, que sempre defendeu os trabalhadores quando era oposição, agora está propondo o salário de R$ 260,00, enquanto o PFL, o PSDB, que sempre defenderam o arrocho, agora estão propondo R$ 275,00, R$ 300,00? Por que esta inversão? Porque o governo é constrangido a tomar medidas sem os quais os capitais dizem “nós não vamos mais para o Brasil”.

Mas e se o Lula resolvesse enfrentar o “capital externo”, o que ele poderia fazer que não prejudicasse o Brasil?
Veja, tem um mito que diz que não há alternativa. Margareth Tatcher dizia nos anos 80: “There is no alternative” (“Não há alternativa”). Vou dar dois exemplos. O Kichner, presidente da Argentina, ganhou a eleição sendo o segundo mais votado no primeiro turno. O Menem desistiu de ir para o segundo turno e ele foi proclamado vitorioso sem ter força popular nas urnas. O Kichner falou pro FMI: “Nós não vamos poder pagar desse jeito”. Ele não rompeu, não virou a mesa; só disse que não ia pagar daquele jeito porque a Argentina chegou ao fundo do poço. E, ao invés de ficar pagando um volume imenso da dívida externa, a Argentina pegou esse dinheiro e jogou na produção. O desemprego retrocedeu e o Kichner hoje tem adesão de 75% da população. Segundo exemplo: Chávez. Por que a direita quer depor o Chávez? Porque a direita não aceita um governo que não seja da direita. Quando o Chávez foi eleito, com votação expressiva, estava montada a privatização da PDV, a empresa estatal venezuelana de petróleo. Quem ia ganhar dinheiro com isso aí? Os gerentes corruptos da PDV envolvidos, os EUA, que são o principal consumidor de petróleo venezuelano. O Chávez tomou o poder e disse: “Não vamos permitir”.

E o Lula, o que fez?
Muito bem, o Lula foi eleito há um ano e meio com 53 milhões de votos. Foi uma votação arrasadora. Aquele era o momento de chegar no FMI e falar: “Olha, nós não podemos pegar o fundamental, o que o país produz, pra pagar vocês, porque eu tenho 40 milhões de miseráveis. Não dá, eu tenho que mudar esse país. À medida em que nós voltamos a produzir, nós vamos pagar”.

Mas dizem que os capitais ficam nervosos…
Ah, “os capitais vão ficar nervosos”! Eles é que se virem. É verdade que os capitais iam ficar nervosos. Eles vão pra Rússia, só que lá eles também não têm estabilidade. Eles vão pra Índia, só que a Índia não segue o que os EUA mandam. Eles vão pra China, mas lá é um país comunista, não é neoliberalismo tupiniquim. Lá é um partido comunista, daqueles de linha dura. Os capitais não abandonariam um país de 180 milhões de habitantes. Aqui eles querem vender carros, computadores, relógios. Os capitais poderiam sair num primeiro momento e o Lula teria que alternativa? O Lula teria que discutir com a Argentina, com o Chávez, com Cuba, com a Índia, com a China. E montar um campo de países e dizer: “Nós não vamos mais aceitar essas condições”. O que aconteceria com o Lula se tivesse feito isso? Estaria resgatando a dignidade do povo brasileiro. Não fez isso, fez a política igual à do FHC numa versão ainda mais intensa. O Brasil perdeu no último ano 14% da renda dos trabalhadores. Pra fazer isso, então deixava o Fernando Henrique.

E qual é o papel do PT, como partido, no governo?
O papel do PT é dar sustentação ao governo. No meu entender, é um fracasso do PT enquanto partido de esquerda. O PT deixou de ser um partido de esquerda. O PT hoje é Lula, Dirceu, Genoíno, Mercadante, Palocci. Este PT dominante abandonou o projeto do partido dos trabalhadores, de uma sociedade socialista. Eu sempre votei de ponta a ponta no PT. Evidentemente que daqui pra frente este quadro mudou. Eu penso que o PT vai sofrer em 2004 uma profunda derrota eleitoral, vai perder nas principais capitais.

E Campinas?
No meu entendimento, o PT já perdeu aqui.

Perdeu para quem?
Perdeu pra direita.

Pro PSDB?
PSDB ou alguma outra “alternativa”. Por que perdeu? Primeiro porque ocorreu uma tragédia no dia 10 de setembro de 2001. A morte do Toninho destroçou o projeto de governo. O Toninho havia se preparado para fazer uma gestão democrática e popular, com forte apoio da periferia, das classes médias e apoio inclusive de alguns setores dominantes.

O sr. acha que a Izalene mudou muito o perfil de governar do Toninho?
Acho, mudou bastante, é outra concepção, outro desenho. É muito difícil você herdar uma prefeitura cuja vitória tinha a figura do Toninho. Um partido se constrói pela somatória de um trabalho positivo e pela mentalidade e força de suas lideranças. O Toninho teve, talvez, mais que essas duas coisas, assim como o Lula no PT. O Lula foi o mais importante líder operário do Brasil no século XX. Ele foi, no passado.

O PT não ganha por causa do Toninho?
Não, eu estava falando da Izalene. Agora digamos que a Izalene fizesse parte do mesmo grupo do Toninho e dissesse “nós vamos, com a equipe que o Toninho montou, dar continuidade”. Mas não, o seu governo era o grupo que foi derrotado nas prévias do PT, foi um pouco a revanche. Ainda que uma revanche que ninguém queria, óbvio. Mas aí subiu o grupo que tem a liderança do Renato Simões e do Luciano Zica, e foi mudando as peças fundamentais da secretaria do Toninho. Ao definir novas prioridades, ao demitir as figuras-chave do governo, a Izalene não conseguiu trazer consigo a herança do programa inicial. Vieram os primeiros desafios, a greve do funcionalismo público… O PT agiu muito mal, fez o que ele sofria no passado, passou a reprimir a greve, a descontar os dias parados. E isto descaracterizou o governo. A direita não brinca em serviço. O PSDB está pronto para abocanhar esta derrota do PT.

Mas o sr. vê diferenças entre essa gestão do PT e gestões anteriores? Você acha que o PT fez um bom governo?
Acho que nós temos que ver com cuidado. A gestão do Chico Amaral foi um desastre completo. As classes dominantes usam o espaço e o poder que têm para saquear a res publica (coisa publica). A gestão do Chico Amaral foi uma versão assemelhada do que se teve em São Paulo com o malufismo. O Toninho queria fazer mudanças muito importantes. Por exemplo, as mudanças afetavam a questão do zoneamento, atacavam interesses imobiliários. O que os interesses imobiliários querem? O que está acontecendo agora, mudar todo o zoneamento dos bairros para poder ter mais especulação. Essas medidas que estão sendo tomadas e aquelas que foram do começo do governo sinalizavam mudanças. Depois da morte dele, muitas dessas medidas positivas se mantiveram. Outras não e houve retrocesso. É evidente que a gestão do PT em Campinas, da fase Izalene, teve bons momentos também.

O que o sr. acha da greve da Unicamp?
A Unicamp é um patrimônio público que nos faz fazer parte de uma das principais universidades da América Latina. Esta universidade soube preservar um corpo docente e funcional qualificado. Isso é permitir que o professor estude, tenha autonomia e liberdade, não precise depender de recursos extra-acadêmicos para sobreviver. É por isso que no ensino superior brasileiro as universidades públicas dão de 100 a 0 nas escolas privadas, que são formadoras de força de trabalho precarizada (a única exceção são as PUCs e algumas fundações como a Getúlio Vargas). Como você preserva este patrimônio? Mantendo o corpo docente e o corpo funcional com dignidade. Se essa dignidade não for preservada, nós vamos ter que sair para ganhar a vida fora no mercado. Eu costumo brincar: o mercado é um Frankenstein desalmado. O mercado é destrutivo, não quer ciência e nem humanidade. Como a Filosofia ou as Ciências Sociais vão sobreviver, se depender do mercado? Com isso chegamos na Unicamp hoje. Eu penso que a atual reitoria tem mostrado competência acadêmica, capacidade de gerir a universidade. Mas a Unicamp é parte de um país que foi destroçado na década de 90.

E a greve?
Preservar a Unicamp é lutar para que professores e funcionários tenham minimamente recuperado as perdas do último ano. Eu estou de acordo que nós não temos condição de repor todas as nossas perdas agora, voltar aos patamares mais altos que a universidade teve. O governo Alckmin, tal qual o governo nacional, pratica o neoliberalismo, que quer enxugar o estado e quer incentivar a parceria do público com o privado. Se o princípio PPP (parceria público-privado) for introduzido na alma da universidade pública, estaremos dando um golpe de morte na universidade. Estaremos iniciando uma universidade que diz que é pública, mas que depende do capital privado. Aí, não tenha dúvida, dessas grandes universidades, poucas vão ficar. Quero lembrar uma coisa que nosso querido Octávio Ianni falava muito: universidade rima com humanidade e não com mercado. Temos que fazer essa greve para não permitir que nossos trabalhos sejam degradados e exigir que o estado aumente os recursos. A nossa luta hoje é uma luta contra essa destruição neoliberal da universidade. Nossos colegas dizem: “Mas greve não é uma boa alternativa”. Eu posso concordar que temos que repensar, mas não temos outra alternativa, entende? Aumento zero é inaceitável. Se continuar assim, daqui a pouco vamos ter que devolver salário.

O que o sr. acha de projetos voltados para o mercado que a Unicamp oferece, como os cursos de extensão?
Então, veja bem: a universidade pública pode ser desmontada por duas maneiras. A primeira é uma privatização que a arrebente de cima a baixo num só golpe, que é muito difícil. Outra alternativa da universidade se privatizar é através das fundações. Ou seja, ela vai abrindo flancos no seu entorno e esses flancos vão abrindo brechas onde você passa a oferecer ao mercado curso pago, e, de repente, este setor que era marginal vira o fundamental. Por exemplo, a USP está realizando um debate muito importante: algumas das suas faculdades são faculdades privadas dentro do espaço público. Nós temos que ter uma universidade pública que, quando dê cursos de extensão, trabalhe gratuitamente. A própria posição do reitor Carlos Henrique de Brito Cruz, nesse período recente de desmonte da previdência, foi claramente em defesa da universidade pública. E isto foi positivo, a gente teve coragem de ir à imprensa e dizer “essa proposta é privatista e não nos interessa”. O pior são os reitores que não se manifestam. Mas, voltando à greve: é claro que ela não é boa para uma universidade, mas em alguns momentos é imprescindível que ela ocorra.

Qual é o papel da esquerda hoje?
No século XX, a tentativa de construção do socialismo foi derrotada. A revolução russa foi derrotada em 1989. O leste europeu desapareceu. Heroicamente, persiste revolução cubana. É o único povo da América Latina que os EUA não dizem o que tem que fazer, além do que eu já me referi também da Venezuela. Mas o papel da esquerda é reinventar o socialismo. A mídia costuma dizer que o socialismo acabou. Não. Nós poderíamos dizer que o socialismo não acabou porque ele não conseguiu nem começar. O capitalismo levou 3 séculos e meio para se constituir. Por que o socialismo tem que ganhar a batalha em um século? O desafio é pensar qual humanidade queremos. Queremos uma sociedade que produza bombas, que destrói a natureza? A Rosa Luxemburgo escreveu, no início do século XX: “Socialismo ou barbárie”. Nós já estamos na barbárie. Agora, eu não tenho a mínima ilusão, não estou pensando no ano, nem mesmo na década, estou pensando no século. Um outro mundo é possível. Evidentemente que este outro mundo não é consertar o caráter inconsertável da sociedade atual.

Mas o sr. não acha que pode existir um capitalismo mais humano?
Eu nunca vi. Nunca vi. Ah, na Suécia, claro. Só que se você imaginar o capitalismo sueco nos anos 70, antes do liberalismo, e agora, você vai ver que ele está ficando mais desumano. O primeiro mundo que viveu o well fare state já é passado. O que nós temos agora são alguns traços de manutenção do que desmoronou. Os países que viveram o well fare state tinham o Terceiro Mundo drenando riquezas pra eles. Me dê um exemplo de país de bem estar social do Terceiro Mundo. É muito mais fácil vivermos uma brazilianização ou uma africanização do mundo do que o contrário.

O sr. vê Cuba como um espelho?
Não, eu vejo Cuba como uma resistência heróica. Um povo que, apesar do bloqueio e intolerância norte-americana, resiste. Cuba não é um espelho, é um sinal de que se um país pequeno pode resistir, porque um país como o nosso, que é um país grande, não pode?

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 24, junho de 2004)