Nação Zumbi

O som da Nação
Recife, maracatu, rock, folclore, eletrônico e dub misturados no som da Nação. Dez anos de estrada e cinco cds lançados. Talvez a mais importante banda surgida no Brasil nos anos 90. Lucio Maia, Jorge du Peixe e Dengue falam do mais recente trabalho, o mercado de música no Brasil, a importância de Zumbi e a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
José Ricardo Manini
Silvio Anunciação

Como foi a gravação do último disco?
Jorge du Peixe:
A gente chegou no estúdio com aproximadamente 60% do disco pronto… Muita coisa foi feita em estúdio, na verdade. Quando assinamos contrato com a Trama, sequer tínhamos alguma coisa pra mostrar. Sequer tínhamos algum registro de alguma coisa. A gente tinha alguma coisa, mas nada totalmente acabado ainda.
Lucio Maia: A gravadora deixou a gente à vontade. A obrigação de conduzir o trabalho ficou por conta da gente. Eles não foram hora nenhuma ver o que a gente tava fazendo lá dentro. Se quiséssemos fazer um disco de black metal, os caras iriam deixar.

O disco é homônimo. Isso é proposital, pra reforçar o nome?
Jorge:
É proposital. Inclusive tem outra leitura, por conta da sonoridade própria: algumas pessoas comentam que se você botar o som, você identifica logo a banda. E as músicas também estão dispostas na capa, sugere também você escolher um título ali. São doze músicas, e você pode escolher, mas em princípio a idéia era deixar que o disco fosse homônimo mesmo. Porque é um nome forte também. Nação Zumbi. Nação do Brasil, de Zumbi dos Palmares, mas também de zumbi quase acordado, mas não totalmente.

Muitas pessoas ligaram isso à morte do Chico Science, dizendo que é uma maneira de vocês reafirmarem a identidade…
Jorge:
Mas não é… É pra mostrar também que o nome é forte pra caramba. Inclusive o nome foi o Chico que deu. Não é uma coisa de se desvencilhar nem de se separar. As pessoas perguntam se nós estamos nos livrando dessa coisa. A gente não quer se livrar de nada, não tem nenhum fantasma assombrando ninguém, não tem nada disso. Muito pelo contrário. Cada disco que a gente fizer vai ser uma homenagem a ele.

Depois da morte do Chico, o som de vocês teve uma mudança, principalmente no último disco.
Lucio:
Principalmente nos vocais (risos).
Jorge: A mudança é natural. A gente nunca pensou em fazer um disco igual ao anterior. A gente nunca pensou em se repetir, na verdade. No processo de amadurecimento você vai adquirindo mais influências e se interando nessas novas possibilidades. Na verdade, o disco é bem em cima disso: possibilidades. Enquanto neguinho usava o subwoffer de bateria eletrônica, a gente tentou usar o subwoffer dos tambores, criando uma característica nossa. A gente quer cada vez mais pensar em possibilidades novas e nunca se repetir.
Lucio: Apesar das pessoas terem desligado a imagem do Chico da banda, era a gente que tocava ali, pô. Independente se a gente tivesse ainda fazendo músicas com o Chico ou não, o amadurecimento ia ser nesse caminho que a gente está indo hoje em dia. Com certeza ia ter a mão dele, o vocal ia ser diferente. Com certeza ele também iria querer entrar cada vez mais em tecnologia, que aqui todo mundo sempre curtiu.

E em termos de carreira internacional, como está o público de vocês lá fora?
Lucio:
Tá legal. Desde 95 que a gente tá sempre indo lá fora, tentar tocar os discos. Temos todos os discos lançados tanto na Europa, como no Japão e EUA. Principalmente no circuito underground, que foi onde a gente conseguiu ir mais longe ainda, tem disco da gente na Islândia. Então, dá pra você trocar uma idéia com o pessoal de fora. Agora, dificulta um bocado se você não tiver um suporte pra todo ano você chegar junto, né? Porque é longe pra caralho…
Dengue: E o público é gringo. É essencialmente gringo. A gente não atinge muito os brasileiros que moram por lá. Brasileiro que mora lá vai ver Gil, Jorge Ben… A gente não é tão conhecido.
Jorge: Tem muitas situações lá, a grande maioria, que é assim: são brasileiros tocando pra brasileiros.
Lucio: Tem aquela hipocrisia que as pessoas ficam dizendo dentro do Brasil, falando que “todo ano eu vou pra Europa fazer show”, mas que nada, é pra brasileiros que moram por lá, entendeu? Vai Daniela Mercury, Ivete Sangalo, os pagodeiros, todo mundo vai. A gente, não. Conseguimos fazer um circuito diferente, entrar um pouco mais, até que mais no underground, pra menos pessoas, mas são mais gringos, na real a gente é que é gringo lá. É outro tipo de público, pra uma galera que se liga mais na música do mundo.

Quando vocês começaram no Recife dos anos 90, como um movimento, vocês queriam mudar um pouco ali, fazer barulho… Como está Recife agora?
Jorge:
A gente tem um pouquinho mais de recursos, né? Temos dificuldades pra caramba, mas nada parou, muita banda anda saindo, muita gente se profissionalizando. Eu costumo falar muito da cena: o movimento foi lá, teve o manifesto, teve aquele mito todo, mas vale salientar que foi tudo muito pensado em cima da diversidade e não da batida única. A Sony quando contratou a gente achou que a gente ia estourar, ia ser uma parada nova, um axé de Pernambuco ou coisa do tipo.
Dengue: Que a gente ia botar uma mulher sambando.

Nessa época, eles impuseram alguma coisa?
Lucio:
Eles sempre tentavam. Inclusive no disco “Afrociberdelia” a gente se sentiu muito afetado com aqueles remixes que rolaram no final, que pouca gente ficou sabendo que foi eles que empurraram, e depois eles mesmo assumiram que foi merda e tal.
Dengue: Não adiantou, ninguém tocou, não vendeu…
Lucio: Porque, na real, esse disco tinha estourado o orçamento enquanto estávamos gravando, e aí tínhamos um empresário que era um cuzão, que não ficou do lado da banda nessa hora, e o que aconteceu foi que os caras impuseram a parada, disseram que o disco não tinha “nenhuma música pra tocar na rádio”, então “a gente vai ter que fazer uns remixes e vai ter que entrar e o orçamento tá estourado e foda-se”, não tavam nem aí. E aí isso ficou por baixo dos panos e só vimos quando tava pronto. Isso causou muito mal estar pra todo mundo. A posição da gente diante da mídia foi muito clara, todo mundo percebeu de que se tratava ali, e enfim, nenhuma daquelas músicas significaram nada pro disco, a gente conseguiu estourar muitas outras músicas, “Maracatu Atômico”, “Manguetown”, enfim, conseguimos fazer com que o disco rolasse do jeito que ele era.
Jorge: Até porque se fosse o caso de se fazer remixes, a banda teria indicado quem fizesse.
Lucio: Com certeza não o DJ Marlboro, ou o DJ da Xuxa…
Jorge: Aquilo foi remix burro, um remix de apelo comercial pra tocar em rádio. O remix tem outra conotação hoje em dia…
Lucio: Imbecilizou um bocado a idéia que a gente tinha pro disco.
Dengue: Mexeram no quadro que a gente pintou.

E agora com a Trama, a diferença é grande?
Jorge:
Tem muita diferença, o tratamento de ouvir, de não chegar impondo, conversar, ver possibilidades, isso é importante.

Voltando um pouco pra cena de Recife, quando vocês começaram, tinha uma cultura local bem enraizada ali, certo?
Lucio:
Tinha uma série de bandas, mas era uma coisa muito fraca, porque havia muita precariedade das coisas, de equipamento… Você vê que neguinho tava vivendo de entusiasmo ali, de querer fazer. Não se vendia corda de guitarra boa por ali… Só tinha equipamento nacional. Então, tudo isso dificultou um bocado. O grosso da história foi exatamente esse marasmo, de não estar acontecendo nada, e quando uma pessoa fez muitas coisas, outras se sentiram com a mesma energia, de quererem fazer igual, e aí foi embora.
Dengue: Hoje a cena underground nacional tá dependendo desses festivais pequenos, que ainda rolam em alguns lugares. Se não fosse isso, não rolava mais nada.

E como vocês vêem a importância do Abril Pro Rock nesse contexto?
Lucio:
Foi o festival que abriu espaço pra todo mundo, não só pras bandas locais, mas pras que outras bandas viessem pra Recife, que nunca tinham vindo. Abriu um outdoor ali pra todo mundo. Até hoje as gravadoras ficam nessa paranóia de “agora é o Ceará Music”, “vamos pro Abril Pro Rock”, as gravadoras todas vão pra ficar caçando talento, essas coisas. Isso aí é importantíssimo, porque você vê que é um bagulho que gera toda uma coisa…

Como vocês analisam o cenário musical brasileiro, não só o underground hoje?
Lucio:
O Brasil tá quebrado.
Jorge: Tem muita gente batendo na parede e voltando. Esse negócio de fabricar fama, fabricar artista. Às vezes até quem tem competência não está achando espaço.

Qual o problema do público aqui no Brasil?
Lucio:
O problema do público aqui no Brasil é o seguinte: o povo não tem grana pra gastar com diversão. Esse é o grande problema.
Dengue: O CD é caro, as rádios estão falidas e a pirataria reina. O lobby das rádios é terrível, só passa merda pra população…
Jorge: Com a porra do jabá… Só tem espaço pra rolar aquela merda ali, não tem espaço pra mais nada.
Lucio: Em dez anos de estrada, esse é o nosso quinto disco, sempre foi assim: toda vez que dá uma quebrada no mercado, sempre que o dólar vai pra puta que pariu, a primeira coisa que as pessoas fazem é parar de comprar disco e deixar de ir pra show. A quantidade de show diminui um bocado, então você vê que você tá meio suscetível à maré. É diferente dos EUA, por exemplo. O mercado de música lá é um império poderoso feito petróleo. Rende tanta grana quanto.

Dia 20 é comemorado o Dia da Consciência Negra. Qual a relação disso com a banda hoje?
Lucio:
A gente vê isso como uma parada bem natural, bem tranqüila. Apesar do problema do Brasil é ter preconceito financeiro, e não de raça. É claro que você vê muito mais negros numa favela do que brancos mas você vê negro que é rico e vê branco que é pobre levando porrada, sofrendo esse mesmo tipo de coisa. Uma coisa que é muito falho é o fato de os líderes negros que a gente têm serem ligeiramente comentados.
Bola 8: Ninguém fala de Zumbi. Existe um poeta negro chamado Solano Trindade e ninguém sabe quem é. Até se fala, mas se fala muito ligeiramente.
Lucio: O que se pensa é aquela imagem de Tiradentes, por exemplo.
Dengue: Socaram isso na cabeça da galera.
Lucio: Falta realmente vontade própria do povo brasileiro de ver quem são seus líderes.
Dengue: Mas isso foi também culpa do governo, do regime militar e tal. Atrasou todo o processo.
Lucio: Democracia no Brasil ainda é uma criança engatinhando. O processo de democratização, de evolução, de pensamento está atrasado pra caralho. Eu não acho que o dia da morte de Zumbi deveria ser um feriado, mas deveria ser um dia de conscientização, que passasse na TV etc. Tem muito espaço que fica voltado só pra porcaria…
Jorge: Pensar num dia em que um negro se rebelou e começou a pensar em melhorar a qualidade de vida do povo dele, dos quilombos ali, e eles se libertaram…
Lucio: Todo mundo fala muito de folclore. “Não, eu escuto música brasileira.” Que porra nenhuma, cara.
Dengue: Folclore parece que é coisa de museu, né? “Ah, o folclore.” É uma coisa intocável, você não pode tocar, mexer e você não sabe onde está.
Lucio: A gente faz parte do folclore, a gente toca o folclore.

Você estava falando das raízes…
Lucio:
Sim. As raízes foram massacradas por causa da mídia. Porque a mídia fica dizendo o que é folclore, sacou?
Bola 8: Quando a gente tava lá na Globo, todos os funcionários tinham o cabelo ouriçado. É bem louco isso.
Lucio: Até o faxineiro é arrogante, velho. Tá com o crachá da Globo e fica se achando… Sabe aquele Bozó, do Chico Anísio? Aquele é o melhor personagem que ele já criou.
Lucio: É um império, cara. E quem está lá dentro se sente parte do império. Não é tão diferente do tempo dos senhores feudais, de quem fazia parte ali da nobreza e quem eram os vassalos.

E com essa virada na política brasileira, vocês acham que pode haver uma mudança?
Lucio:
Eu acho que sim. É o primeiro presidente operário da história do país.
Jorge: Ele pensa numa reforma geral, e quer pensar num todo.
Lucio: Dizem que ele fala errado etc., mas eu quero saber quem é que fala certo nesse país, quem é que fala o português correto dentro do país. É um ridículo quem fala o português correto. Se você tentar falar direito você fica se sentindo mal até. Tenha a paciência, velho. O presidente agora pelo menos tem identificação com o seu povo, né?
Dengue: Totalmente.
Jorge: O cara não é lindo.
Lucio: Não tem nem dedo, só tem nove dedos na mão!

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 7, novembro de 2002)