Marçal Aquino

Aquino, um representante da “nova literatura” brasileira
O escritor, jornalista e roteirista Marçal Aquino é, atualmente, o que se pode chamar de um escritor da nova literatura brasileira. Não é um “transgressor” e “rebelde”, nem tem a pretensão de sê-lo. Mas tem estilo. Suas obras – entre elas “Faroestes”, “Amor e outros objetos pontiagudos” e os recentes “Cabeça a Prêmio” e “Fomes de Setembro” – têm personagens complexos, prosa ágil, direta e contundente. Aquino tem currículo também. Na ficha corrida do escritor estão o roteiro para o filme “O Invasor”, de Beto Brant (premiado no festival de Sundance), o livro “Faroestes” (finalista do prêmio Jabuti de 2002) e “Amor e outros objetos pontiagudos” (ganhador do prêmio em 1999). Marçal foi também roteirista de mais dois filmes de Beto Brant (“Os Matadores” e “Ação Entre Amigos” e, este ano, está trabalhando o roteiro de “Cabeça…”, junto com Karim Aïnouz, diretor de “Madame Satã”). Na entrevista, feita por telefone, Marçal falou sobre literatura, realidade brasileira e cinema

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
Silvio Anunciação

A maioria dos seus personagens é formada por policiais corruptos, matadores, bandidos, enfim, personagens que vivem numa barbárie urbana. Como é isso?
Olha, eu discordo um pouco, acho que não tem só bandido e matador na minha literatura. Tem um olhar sobre uma certa periferia dos grandes centros e tem um olhar que é quase rural também. Me interessa muito essa coisa da realidade, a matriz da minha literatura é a realidade. Não significa que eu pegue o fato e o transcreva, porque aí eu estaria fazendo jornalismo e isso eu já faço pra ganhar a vida. A literatura tem um outro tipo de mirada. O ponto de partida pra mim sempre é a realidade, mas o resto é por conta da imaginação.

Esse tipo de literatura que você faz é pra causar algum tipo de desconforto e “reverter” esse quadro, que se parece com a situação do país?
Eu penso em contar histórias. Agora a literatura deve causar desconforto. Eu acho que a literatura não é feita pra confortar ninguém, não é por aí. A literatura deve, no mínimo, provocar dúvida, reflexão, embora, antes de mais nada, a literatura deva dar prazer (risos).

Qual é o processo pra você buscar os personagens?
Meu processo de criação é assim: eu não sei muito bem o que vai acontecer. Eu tenho só um pedaço da história, às vezes, só o começo, às vezes, só o título, e sei que ali tem algo secreto que me interessa desvendar. O personagem vem pronto para mim, ele vem inclusive com nome. Eu sei, por exemplo, que aquele nome é pertinente para ele. São raras as vezes que tenho que trocar o nome de um personagem. E aí eu digo pra você o seguinte: ele é todo mundo e ninguém, ele é uma soma de características. Não existe um personagem como aquele na realidade, ele é próprio da literatura, embora ele esteja aludindo a uma realidade já existente.

E isso está próximo ao seu cotidiano?
Eu gosto muito de andar pela rua, pra olhar pessoas, ouvir frases, eu sou um andarilho nesse sentido. Em qualquer cidade que eu chego, eu faço questão de me perder no centro da cidade pra olhar como é o povo, como falam… Isso é um depósito de histórias e possibilidades.

Esse negócio de realidade virou uma febre nos últimos anos, tanto na literatura como no cinema. Como você vê esse aparecimento de obras que falam da realidade? Quem você destacaria no meio disso tudo?
O momento é muito particular, tanto da literatura quanto do cinema. Eu acho muito saudável, porque é uma forma de você discutir, de propor reflexões sobre essa realidade. Evidentemente, como acontecem êxitos como “Cidade de Deus” e “Carandiru”, tem pessoas que olham aquilo como fórmula e tentam fazer coisas parecidas. Mas o tempo e o próprio público se encarregam de separar o joio do trigo. Quando, por exemplo, eu escrevi “O Invasor”, eu não estava ligado nesse modismo, acho que nem tinha saído o “Cidade de Deus” ainda, então eram coisas que eu queria discutir, e acabou virando um filme interessante, que eu gosto muito, e que discute essa realidade. Existe, sim, um pouco de modismo. Mas, ao lado disso, tem gente muito talentosa fazendo tanto literatura quanto roteiro – esse roteiro do “Cidade de Deus”, aliás, é primoroso, o Bráulio Mantovani escreveu partindo de outro livro primoroso do Paulo Lins.

Dos anos 90 pra cá, há toda uma geração de escritores, que foi classificada como transgressora no livro organizado pelo Nelson de Oliveira (“Geração 90: Os Transgressores”, ed. Boitempo). E surgiram muitas críticas, questionando se essa literatura era realmente transgressora ou não…
Tem duas perspectivas nessa questão. A primeira delas é que embora eu tenha participado da primeira coletânea que o Nelson fez, chamada “Geração 90: Manuscritos de Computador” (ed. Boitempo), naquele momento eu já conversava com pessoas e dizia: “Isso aqui é uma licença poética do Nelson”. Porque não são pessoas da mesma faixa etária, elas não têm um programa comum; é um grupo de escritores que aparece escrevendo num certo momento que mostra muita vitalidade. E nesse sentido o trabalho do Nelson é maravilhoso como mapeamento. A segunda perspectiva é a questão do “transgressor”, outro rótulo criado pelo Nelson pra agrupar os escritores. Eu já ouvi o próprio Nelson falar que a característica desses escritores era a narrativa não-linear quase infantil. O mérito dele é registrar quem está aparecendo. O problema da literatura nos últimos anos era sempre aquela coisa de publicar o primeiro livro. Na metade dos anos 90 pra cá, teve o fenômeno das pequenas editoras. Então, essa proliferação de editoras cria canais pra essa moçada toda conseguir veicular. E também tem o fator Internet. Eu me lembro na década de 70, quando eu comecei, pra ter contato com os outros escritores era através de correio. Você imagina hoje, com a Internet, você consegue não só passar a sua mensagem, mas a sua obra.

Mas e os “transgressores”?
Aqui em São Paulo tem muito essa coisa da convivência próxima, porque são muitos escritores convivendo no mesmo espaço. A gente tem uma relação de amizade, que extrapola a análise literária. Mas não gosto de todo mundo.

Quem você citaria como destaques?
O próprio Nelson de Oliveira me interessa. Outro é Luís Rufato. O trabalho dele é uma coisa fantástica, de primeira qualidade. Gosto muito do que o Ronaldo Bressane escreve. Leio o (Marcelo) Mirisola com carinho e muito interesse também, esperando que ele venha a dar prosseguimento na sua trajetória literária. Tem o Joca (Reiners Terron), que eu gosto sobretudo dos contos, o Cláudio Galperin, o Cadão Volpato e o Sérgio Fantini. E gosto da velha guarda também.

Existem dois escritores que são bem polêmicos por criticar bastante essa corrente da literatura brasileira que trata de realidade, violência etc., que é o Paulo Polzonoff e o Alexandre Soares Silva. O que você acha das críticas deles?
O Polzonoff eu acho muitas vezes que ele tem razão, como quando ele escreveu uma crítica sobre o livro do Chico Buarque, o “Budapeste”, que é uma das melhores leituras que o livro do Chico teve. Agora, às vezes eu acho que, ao criticar certos livros, ele sai do livro e vai pro autor. Mas, de qualquer maneira, vê-se que é um sujeito que lê bastante e escreve bem. Pessoalmente, eu lembro de uma vez que ele tinha criticado um livro meu chamado “Faroestes”. E, na seqüência, eu publiquei “O Invasor” e ele elogia o livro e, num certo momento, ele dizia que retirava tudo aquilo que ele tinha dito sobre o outro livro. Eu achei corajoso da parte dele (risos).

Sua obra tem muito de literatura policial. Na sua trajetória, você foi até repórter policial. E literatura policial, de maneira geral, sempre enfrentou certo preconceito. Mas a sua obra sempre foi bem recebida. Como é fazer esse tipo de literatura e ao mesmo tempo ter que fugir dos clichês do gênero?
Eu tenho uma certa dificuldade em me classificar como “escritor policial”, mas o rótulo não me incomoda. Mas, pra mim, literatura policial é aquela clássica, com detetive, a la Raymond Chandler. É curioso, porque eu não procuro escrever um “livro policial”. O “Cabeça a prêmio” era uma história de amor entre um pistoleiro e uma cafetina, então isso acabou trazendo esse mundo mais cinzento pras páginas do livro. Tanto que a trama policial ali é tênue, o que interessa é discutir os destinos humanos. Essa questão, vetusta, de dizer que literatura policial não é literatura, nem me incomoda. Eu leio grandes escritores, o Chandler é apenas um deles. No Brasil, o Rubem Fonseca é uma coisa fabulosa. Eu me vejo como escritor, um cara que quer contar as suas histórias, que às vezes são criminais e às vezes não. Costumo brincar que nos meus livros ninguém voa, se voar, eu explico o porquê.

Você vive de literatura?
Não, vivo de jornalismo. Eu sou um redator free-lancer. Trabalho em casa, escrevendo textos para empresas. O que paga as contas aqui em casa é o jornalismo. Eventualmente eu consigo dinheiro fazendo roteiro pra cinema, mais isso é outra arte marginal, né?

A sua relação com o Beto Brant é boa, né? Já foram três filmes…
É, começou com “Os Matadores”, depois “Ação Entre Amigos” e “O Invasor”. E agora eu fiz a adaptação com ele de um livro do Sérgio Sant’Anna, chamado “Um crime delicado”. Esse projeto está em fase de pré-produção, o Beto deve rodar no meio do ano. Ele gosta do universo que eu abordo nos meus livros. O livro que eu estava escrevendo no ano passado ele já disse vai filmar de qualquer maneira. Eu sempre que assisto a um filme e converso com o Beto, é uma oportunidade de aprender, porque o olhar dele é muito privilegiado.

Na sua vida, a prioridade é a literatura? O jornalismo é uma coisa “menor”?
Não existe essa coisa de “menor”, existem prioridades. Agora, o jornalismo não me atrapalhou. Ele me ajudou, minha maneira de escrever ficou mais sintética, mais concisa, treinou meu olhar de repórter. Eu não tenho desprazer nenhum em trabalhar com jornalismo. E nem em fazer roteiros pra cinema. É aquela história: eu vivo do meu texto.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 20, fevereiro de 2004)