Laerte

O evangelho segundo Laerte
Em noite de autógrafos do livro “Deus 2 – a graça continua”, no Tilli Center, em Barão Geraldo, o quadrinista Laerte falou sobre política, publicitários e, claro, quadrinhos

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
José Ricardo Manini
Silvio Anunciação

Como surgiu a idéia para os livros sobre Deus?
Esses livros, na verdade, são coletâneas, eles não foram feitos, eu não concebi o livro inteiro. São coletâneas de tiras que já saíram na imprensa. O personagem Deus é um personagem que eu comecei a fazer para os domingos… Porque, na verdade, o caderno de TV da “Folha” fecha na terça-feira, então eu tinha que ter alguma coisa pronta, que acabava me quebrando a seqüência da semana. E eu resolvi quebrar de vez, fazendo uma espécie de assunto dominical. E, sei lá, acho que Deus é uma espécie de tema natural de domingo, uma vez que o dia tem o nome dele.

Mas, fazendo as tiras, você pensava algo como “ah, vou fazer Deus por isso, por aquilo…”?
É porque eu já tinha usado esse personagem. Eu gosto muito de trabalhar com estereótipos de personagens. Tipo Os Piratas são estereótipos também: perna-de-pau, olho de vidro… Bruxas, com chapéu pontudo preto. Eu gosto muito de trabalhar com imagens já bem conhecidas. E esse Deus já é um clichê, é o velho de barbas brancas, com aréola triangular.

Mas é um Deus bastante diferente, mais humano…
Pois é, aí eu começo a trabalhar com o personagem meu, aí ele entra dentro dos meus clichês particulares.

Pessoalmente, você acredita nesse Deus que você criou?
Não, eu não sou religioso. Eu não acredito em uma entidade metafísica. Eu acredito em uma idéia de Deus que os homens têm e que é muito rica, é uma das idéias e um dos conceitos mais profundos, mais interessantes que existem…

A Bíblia diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Na sua tirinha, parece que você inverteu os papéis, é Deus que está tentando chegar perto do homem…
Bom, isso é uma discussão filosófica interminável. Tem uma linha materialista de pensamento que coloca as coisas dessa forma: Deus é uma criação do homem, é uma idéia concebida pelo homem. A primazia da matéria versus a primazia da idéia. E blá blá blá blá blá… (risos)

Mudando um pouco de assunto, o que você achou do episódio dos Simpsons em que eles dão uma achincalhada no Brasil? E aí o governo brasileiro fez toda aquela coisa reclamando, querendo processar…
Eu tô louco pra ver, eu não vi ainda. A reclamação em si eu acho ridícula, não procede. Quer dizer, imbecilidade total, os caras tão passando recibo de idiota, né? Nos Simpsons, o primeiro país que eles tiram um sarro são os próprios Estados Unidos. E eles trabalham naquela linguagem deles, aquela linguagem satírica, que é muito conhecida, todo mundo já sabe… Então, realmente, é passar recibo de otário querendo reclamar. Aí vem o George Soros, pega e fala que quem manda aqui são os americanos e não os brasileiros, e ninguém chia, a Embratur não chia, o presidente não chia, ninguém chia.

Mas isso, na verdade, tem uma relação como eles enxergam o Brasil…
Não, na verdade os Simpsons trabalham diferente (e eu não vou aqui ficar explicando como os Simpsons trabalham), mas os caras têm um modo de ver o mundo que é propositalmente superficial mesmo, eles vêem as coisas assim, e as críticas que eles fazem são absolutamente violentas. Eu acho muito legal existir isso em televisão.

Falando de quadrinhos, principalmente no que você faz, parece que há uma tentativa de se fazer um humor do cotidiano. Você quer trazer o humor pro universo do leitor?
Que é o meu universo, na verdade. É o universo que eu sei trabalhar. Eu não sou um viajante de outras esferas, eu não sou um cara que circula na economia ou na política. Minha vida real é essa mesma, é o cotidiano.

Como é o seu processo de criação, onde e como você capta as coisas?
Olha, é muito difícil ficar explicando como é o processo de criação de uma obra, seja ela qual for, uma piada, ou um poema, ou uma música, é difícil detalhar isso, as idéias e as partículas que compõem uma idéia são as coisas mais subjetivas e podem vir dos lugares mais absurdos. Eu ando por aí, às vezes tomo nota de coisas. Eu hoje não estou com um caderninho, mas às vezes eu ando com um caderninho. Na verdade, tudo vem de um modo de ver a realidade, de um modo de pensar.

Parece que o seu processo de criação não é nem um pouco romântico, aquela idéia do criador, do insight…
Eu trabalho como qualquer trabalhador intelectual, seja um contador, seja um economista, seja um sociólogo. É ficar juntando e organizando conceitos na cabeça e analisando a realidade, pegando os dados novos e pegando a biblioteca de dados antigos, e vendo esse encontro das águas aí.

Como você vê a produção de quadrinhos e charges no Brasil hoje?
Bom, eu acho que em relação ao tempo em que eu comecei, tem centenas de vezes mais mídia, tanto impressa quanto eletrônica. Tem muito mais espaço, mas, ao mesmo tempo, também aumentou o número de candidatos. Então, proporcionalmente, precisa ter mais espaço pras pessoas surgirem. Ao mesmo tempo, têm que ser criado novos lugares. E isso tem que ser da parte das pessoas, tipo fanzine ou novas revistas. Eu tenho procurado estimular o pessoal da Brasilândia, em São Paulo, que é a alta periferia, bairro super carente e tudo, e eles estão fazendo uma revista cultural, trabalhando com quadrinhos, mais especificamente com mangá. Eles tão juntando uma moçada e vão produzir essa revista cultural. Então é isso: é abrir espaços, frentes, principalmente de coisas que não foram feitas ainda. Sabe, não faz o menor sentido você abrir mais uma revista fashion.

Quais são as dificuldades na produção de quadrinhos no Brasil?
Em matéria de condições pra produzir, eu acho ótimo. São ótimas as condições, tem liberdade de imprensa, tem lápis, papel… (risos) Mas, olha, eu acho que tem uma dificuldade aí que é o seguinte: os meios concretos de produção cultural, tipo revistas e tal, estão aquém da necessidade. Eu acho que precisa de muito mais jornal no Brasil, leitura e tudo mais, do que existe. Mas ao mesmo tempo precisa de cidadãos integrados, precisa de uma ampliação de um espaço da cidadania, precisa de inclusão de massas que estão sendo cada vez mais excluídas. Massas cada vez maiores que estão sendo marginalizadas. Então, eu vejo isso como um problema enorme e todo interligado, assim, quer dizer, novas mídias e novos jornais de gente que tem de ser trazida pro espaço da discussão, da participação política também… Eu não consigo isolar as coisas.

Já que a gente está falando de publicações, o que você acha do Pasquim hoje? Ele supre essa necessidade?
Ah, eu acho importante. Eu só tenho uma encrenca pessoal contra o reaproveitamento de nomes de publicações que já faleceram. Mas, sei lá, eu espero que O Pasquim 21 vá em frente, mas eu tenho uma leve desconfiança de publicações que pegam o nome de meios que já acabaram. E tem também o lance que o Pasquim antigo era em outra época. O Pasquim era um jornal onde apareciam coisas que não poderiam aparecer na imprensa. Hoje, teoricamente, tudo pode aparecer. Você sempre encontra alguém que quer falar mal de alguém. “Ah, eu quero meter o pau no Malan.” Ok, tem o seu lugar lá. “Ah, mas eu quero meter o pau no Lula.” Pois não, é ali, ó, é aquela porta, tecle 2. Quer meter o pau no Soros? Tecle 4. (Risos) Quer dizer, tem gente que ainda tá tentando discar, fazer um interurbano, já que tem muitas teclas pra alguns e poucas pra outros. A grande imprensa está aberta mesmo. Então, o Pasquim tem hoje um outro sentido, que talvez seja o de tentar descobrir qual é o sentido.

O que você acha de usar charge pra fazer crítica social?
Antes de mais nada, deixa eu só esclarecer uma coisa: charge é o cartum editorial. Eu não trabalho muito com cartum editorial, é meio raro. Não é que não aconteça, no jornal “Valor”, por exemplo, que trabalha com temas de economia, volta e meia eu estou falando de alguma medida do governo ou do dólar. Mas eu tento contextualizar de outra maneira, eu tento transformar aquilo no cotidiano de uma série de personagens, eu tento tirar dessa maré cheia do assunto “quente”, a idéia de que aquilo possa ser relido depois de um tempo. Acho que tem caras que fazem isso muito bem. O Angeli, por exemplo, faz isso super bem, eu adoro ver as charges dele. Eu vejo o quadrinho, especialmente o meu, como uma linguagem mais voltada pra comentários do tipo “frio”.

E de onde você tirou esse conceito?
Da história dos quadrinhos mesmo, os quadrinhos costumam ser feitos para serem distribuídos. Então, eles são aproveitados mais de uma vez. É muito raro eu fazer uma tira como a do Garry Trudeau , um americano que faz uma tira chamada “Doonesbury”, e que trata dos assuntos daquele dia, faz charge política direto, mete o pau nominalmente nas pessoas, cita fatos, cita pessoas… é muito raro isso. Nós brasileiros acabamos herdando essa tradição cultural de fazer um trabalho que pode ser reeditado, reaproveitado, reimpresso, e pago mais uma vez, claro (risos).

Como você vê a estética dos quadrinhos de hoje em relação a quadrinhos de 30 anos atrás?
Ah, eu não tenho quase nada a dizer. Porque tem uns caras do passado que eu acho absolutamente geniais, o Segar, que fazia o Popeye. Nossa, até hoje eu caio de costa ao ver aqueles quadrinhos. E ao mesmo tempo há os artistas modernos, como o Bill Waterson, que faz o Calvin, o Ziraldo, que tem um traço mais livre… Sei lá, tem também o Angeli, o Glauco. Eu não sei fazer muito comentário sobre a estética, se é melhor ou não, se houve progresso ou não.

E em termos de conteúdo? Você acha que a evolução da ideologia dos quadrinhos acompanha o contexto?
Eu não sei. Eu compro um pouco o peixe que o Bill Waterson vendeu, de que os quadrinhos ficaram mais mercantis do que eram. Não que os quadrinhos dos jornais fossem exatamente revolucionários, mas eles tinham outro compromisso com o leitor e o cotidiano. E os quadrinhos, especialmente os americanos, hoje, estão muito mais pra Garfield. Quer dizer, existe muito mais a busca por uma eficiência mercantil, que no caso do Garfield, sem dúvida, foi alcançada. No caso brasileiro, eu acho que a gente está um pouco fora dessa esfera. Eu acho que até pela precariedade da nossa indústria cultural, as coisas estão mais artesanais mesmo. Você vê as tiras da “Folha de São Paulo”, por exemplo, são quase todas tiras de autor e muito artesanais.

Você vê alguma analogia do seu trabalho com o movimento punk?
Não, nenhuma. Não, eu sou absolutamente bonzinho, eu sou limpinho. (Risos)

Você trabalhou também com sindicatos no começo da sua carreira, por volta de 79, né?
É, a gente começou lá, eu e alguns amigos fundamos uma empresa que se chamava Oboré, e ela foi fundada justamente pra prestar serviços de comunicação para sindicatos. A partir do sindicado do Lula, em São Bernardo e Diadema, eu trabalhei nela durante uns dez anos. Mais ou menos até fins da década de 80. Daí eu tive uma exaustão pessoal, e resolvi partir pra quadrinhos. Mas o período que eu trabalhei lá foi legal, foi super produtivo, foi um trabalho muito importante. Acho que a idéia da Oboré, que era de tornar os sindicatos conscientes da importância de ter uma assessoria de imprensa e comunicação, assim como eles tinham assessoria jurídica, foi super boa. E acho que isso, não só pela Oboré, mas pelo trabalho de muita gente envolvida nisso, aconteceu… Acho que hoje é um ponto pacífico pra qualquer sindicato do Brasil a importância do trabalho de comunicação e planejamento de campanha.

Falando em assessorias, você acha que o Lula está bem assessorado pelo Duda Mendonça?
O Lula é muito maior que o Duda Mendonça, que o Nizan Guanaes, que o Nelson Biondi, que toda essa gente reunida, multiplicada e potencializada à nona potência. O Lula sozinho é maior que essa gente toda. Esses caras não criam nada, eles são parasitas.

Mas o Lula sozinho não conseguiu até agora ser presidente…
Pois é, pode ser que se precise de um parasita. Você não sabe a quantidade de parasitas que a gente tem dentro do intestino, sem aqueles caras você não faria nem a digestão de um croquete. Eles não criam nada, eles vivem do problema que de certa forma eles próprios criaram. Eles criam uma sociedade de consumo, uma sociedade em que as pessoas vão atrás de coisas sem pensar. Esse tipo de pensamento e esse tipo de profissional, na verdade, procura disseminar essa cultura, uma cultura do comprismo, do tipo “esse é melhor que aquele, esse tem marca e esse não tem”, sabe? A coisa é decidida nesse plano. Agora, o que é o Lula? O Lula é o cara que criou um partido político. E mais uma vez ele não está sozinho nessa, ele está excelentemente assessorado por um bando de gente muito competente e muito legal. E agora tem esse Duda Mendonça, que de repente estão achando que é o cara que está decidindo. Nunca o Brasil teve uma situação de desemprego e de miséria tão grave que nem a gente está agora. Acontece que o Lula está em primeiro lugar nas pesquisas por causa do Duda, segundo o Duda. Mas pode ser que não, pode ser que o Lula esteja em primeiro lugar não por causa do Duda.

E as perspectivas pras próximas eleições?
Minhas? Eu não sou candidato! (Risos) Tô brincando, eu vou votar no Lula e espero que ele ganhe, claro. Eu acho tão fundamental o Lula ganhar agora, que eu nem quero pensar se ele não ganhar. Eu estou o oposto do Soros, eu acho que se o Lula não ganhar é que vai ser o caos. Ou melhor, vai ser esse caos que a gente está vendo, só que pior.

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 2, junho de 2002)