Diogo Mainardi

“Quanto mais Estado você tirar, melhor”
Diogo Mainardi é um dos críticos mais mordazes e irônicos do governo Lula. Semanalmente, na revista “Veja”, ele metralha petistas, governistas, esquerdistas e quem mais tiver senso comum. Um polemista de primeira, num país de segunda. Diz ele: “Me acusam de ser polemista – como se isso fosse um demérito. Que isso seja visto como um xingamento, por exemplo, é assustador”. Nesta entrevista, feita por telefone, Mainardi fala sobre orgulho nacional (“está aí para esconder a tentativa de usurpação do poder”), seus trabalhos (escreveu quatro livros e dois roteiros para cinema), políticas culturais (“política cultural sempre é dirigista e sempre vai dar no lugar errado”), imprensa no país (“imprensa brasileira apóia tudo, até confisco do Collor”), governo Lula e PT (“eu sempre disse que era papo-furado”) e reforma agrária. Mainardi está lançando “A Tapas e Pontapés”, com seus melhores textos publicados em “Veja”

Queria começar falando do governo Lula, que tem insistido muito na auto-estima dos brasileiros, naquela coisa de “o melhor do Brasil é o brasileiro”. O que você acha disso?
Eu contesto, na verdade, a origem disso. A idéia, desde o princípio, me aterroriza. A idéia do orgulho nacional, a idéia da revanche patriótica sempre tem fundo autoritário, ela sempre está aí pra esconder a tentativa de usurpação do poder, nunca é gratuita. Nunca o governo faz propaganda da gente, diz que a gente é bom (risos), se não tem segundas intenções. O governo sempre tem segundas intenções quando elogia a gente.

Você vê alguma unidade cultural no Brasil, uma “cultura brasileira”?
No meu livro eu consegui, depois de recortar e picotar meus artigos, ver algumas constantes, umas linhas gerais. Acho que a cultura brasileira definhou, não existe, morreu. O pouco que existia foi convertido, se transformou em chavão, só provoca atraso. A política também repete as frases feitas de 70 anos atrás. A única explosão que o Brasil teve foi de evangelismo e criminalidade. Essas foram duas grandes transformações da sociedade brasileira. E é óbvio que elas têm reflexos na cultura também.

Uma vez um crítico (Luiz Zanin Oricchio, do “Estadão”) colocou a seguinte frase, sobre o seu primeiro roteiro pra cinema, o “16060”: “Rico ou pobre, que diferença faz? Ninguém presta mesmo, todos são canalhas”.
Esse foi praticamente o teor de todas as críticas que a gente recebeu na época. Um idiota do “Estadão”, o próprio Zanin, nos acusava de ter feito um filme fascista. Seguindo a boa tradição da comédia, a gente debochava de ricos e pobres. E como era uma comédia de costume, não dava pra tomar o lado de ninguém, sobretudo o dos oprimidos. Os oprimidos são tão medonhos quanto os ricos no filme. E a graça do filme era essa. Se eu não tivesse escrito desse jeito, e meu irmão (Vinicius Mainardi) não tivesse dirigido assim, não teria graça.

Ele falava que era “o ponto de vista do apartamento da cobertura sobre a crise brasileira”. Falam muito que você tem um certo “cinismo burguês”. Como é ser o colunista mais odiado de “Veja”, te diverte ver essas bobagens que falam de você?
Olha, não é sempre que eu gero discussão inteligente. Quando a discussão melhora um pouco, eu fico contente; quando a discussão é muito ruim, muito besta, eu não sinto nada, não é nem um prazer nem um desprazer. Eu não sou excessivamente vaidoso, então o retorno da minha coluna não é algo que me envaideça. Tem a parte do meu trabalho, que, quando funciona, eu fico contente. Quando eu consigo colocar alguma questão útil, melhor. Óbvio que os meus detratores conseguem usar todos os termos errados. Me acusam de ser “polemista” – como se isso fosse um demérito. E esse é um dos grandes xingamentos que me fazem. Gostaria muito de ser considerado um polemista. Eu não sou, não tenho nem talento suficiente pra merecer o título. Mas que isso seja visto como um xingamento, por exemplo, já é assustador. Outra crítica é a de que eu não devo ser levado a sério, porque a ironia desmerece, no Brasil, qualquer análise. Outra das nossas tolices.

Quem você admira no Brasil, tanto escritores como jornalistas etc.?
Olha, eu leio muita coisa. Está cheio de gente por aí. Eu sou um grande leitor de jornal, internet, revista… Eu estou sempre à busca de assunto. Agora, a imprensa brasileira ficou muito desarmada. Ela sempre foi muito adesista, muito obsequiosa com governos em geral. Um parêntese: o pessoal do Wunderblogs.com (portal que reúne 25 blogs) é muito bom, é uma moçada muito boa. Gosto muito dos textos do Alexandre (Soares Silva, escritor e colunista de Semana 3).

Como a imprensa tem tratado o Lula?
Nos últimos anos ela foi assustadoramente chapa-branca. Nunca houve um adesismo tão desenfreado. Agora, é o que eu digo sempre, a imprensa brasileira apóia tudo, até o confisco do Collor. Mas no caso do Lula foi extraordinário, porque combinou o interesse de todo mundo, sobretudo o dos próprios jornalistas. E aí perderam completamente o critério, o sentido de se manterem alertas, vigilantes. Eu me assustei. Eu citei o caso de vários deles no meu livro, gente que tinha vendido a própria consciência. E eu também não tenho muito problema em dizer o nome deles. No livro, eu debocho do Zuenir Ventura, do Marcelo Coelho, do Jânio de Freitas, do Arnaldo Jabor… Todos esses que esperavam uma redenção, um futuro melhor… Eu acho que jornalista não pode ficar falando em “esperança”, em futuro. Jornalista tem ver o que aconteceu no dia e escrever pro dia seguinte.

Invertendo um pouco a pergunta que costumam te fazer: o Lula te surpreendeu positivamente em alguma coisa?
A graça da minha coluna, em relação ao Lula, é que eu consegui perceber através de indícios muito tênues, nos três meses que antecederam a eleição, as principais características do que seria o governo dele: diletantismo, clientelismo, fisiologismo. Eu acho que consegui sacar tudo direito. A coisa positiva do governo Lula foi pra mim, eu acho que eu fui a única pessoa nesse país que saiu ganhando. Eu sempre digo: eu devia pagar o dízimo petista, porque ele me deu uma popularidade inimaginável.

Todo mundo esperava um certo purismo do PT. E muita gente se frustrou…
Eu nunca fiz uma crítica ideológica ao PT, porque eu nunca acreditei nele. Nos meus textos, não tem crítica do tipo “ah, eles são comunistas, eles vão confiscar as fazendas, confiscar os apartamentos e vão colocar um operário na minha sala de estar”. Não tem nada disso. Eu apenas nunca acreditei no PT. Eu sempre disse que era papo-furado – e disso eu me orgulho, porque toda impostura, na minha opinião, estava muito evidente. E a imprensa ficou calada, o eleitorado ficou embrutecido, e aí foi a nossa habitual tendência de achar que as coisas vão melhorar por conta própria.

Tanto que você cita no livro que o Lula tinha 96% de popularidade… “Estatisticamente, havia mais gente acreditando em Lula do que em Deus”.
É, 96% não é pouca coisa, né?

Você acha que a reforma agrária deve ser feita no Brasil?
Reforma agrária é coisa pra 50 anos atrás. Agora tem que por essa gente toda na cidade. A gente precisa de serviço. Precisa por todo mundo pra trabalhar, e o campo não tem trabalho. Só tem trabalho enquanto ele for subdesenvolvido, e aí não gera dinheiro. Então fica um monte de miseráveis lá. Olha, se eu fosse pobre eu estaria na favela agora. Eu acho melhor a favela do que o campo. As cidades estão cheias de favelas. Pobre é isso: tem que buscar um jeito de ficar menos pobre. Não é um lote de terra improdutivo, por mais que o governo incentive, dê subsídios para a agricultura familiar, que vai funcionar. Pode funcionar em mini-escala, muito bem organizado. Espírito de iniciativa não falta, está todo mundo querendo trabalhar e ganhar dinheiro. Agora, o Brasil tem um grande problema de crédito. Não existe crédito. Todo crédito é concessão estatal. Tem pouco e o pouco que tem é estatal. Então você tem que estar em algum esquema, se não você não tem crédito.

O Estado deve ser reduzido ao mínimo possível?
Em termos gerais, sem dúvida. Sobretudo no caso brasileiro. A influência do Estado é nefasta. Na cultura, na economia, na política, no dia-a-dia, nas organizações. Ah, tira o Estado de tudo. Quando eu digo isso, é só pra ter a minha posição enfatizada, eu sei que isso não vai acontecer, porque ninguém abre mão do poder. Agora, enquanto o Estado não abrir mão de boa parte do que ele controla, o Brasil não pode ir pra frente, não tem a menor chance.

Você acha as políticas culturais do governo importantes? Eu queria que você até falasse um pouco dos teus filmes, de como foi juntar dinheiro e tudo mais…
Eu nunca aceitei dinheiro de leis de incentivo do Estado porque eu acho que o consumidor não é obrigado a financiar as minhas veleidades artísticas. Se eu tenho veleidades artísticas, problema meu. Se eu faço um filme que ninguém quer ver, problema meu. Se eu faço um filme que todo mundo quer ver, eu encho a botija de dinheiro (risos). É simples assim. Não deve haver política cultural, não deve haver ministro da cultura, não deve haver secretário da cultura, não tem que ter nada. Tem que ter gente que cuida do teatro municipal, que limpa tudo, que troca o revestimento das poltronas e toca pra frente. Se for pra não ter cultura, não vai ter cultura. O Estado corresponde por mais de 50% do mercado editorial brasileiro, das compras de livro. É uma inversão. Não existe isso. A gente lê menos, a gente não atribui importância à leitura, então paciência, fazer o quê? Não é o Estado que vai suprir isso. Eles não podem fazer o livro, a biblioteca e o leitor também.

E depois comprar os livros…
E financiar o leitor. É o que eles querem fazer com o espectador de cinema agora: colocar ingressos grátis.

E colocar cotas de filmes nacionais…
E também distribuir os filmes gratuitamente, fazer exibição itinerante de filmes nacionais. Então eles querem tudo. Eles querem tudo de graça, até a pipoca. Não faz sentido. Acho que cultura é impulso individual. Política cultural sempre é dirigista e sempre vai dar no lugar errado.

No caso do seu filme, o “Mater Dei”, vocês conseguiram bancar o filme todo?
A gente fez uma opção muito pobre de cinema. A gente filmou em digital, usando economias familiares, e a parte mais cara, que foi a que nos criou problema, a gente precisou de sócio, pra transferir do vídeo pra película. Inicialmente nossa idéia era fazer um filme que pudesse ser vendido pela internet. Foi uma precipitação. Não existia ainda a plataforma, não existia um meio tecnológico pra fazer isso, não existia uma distribuição alternativa. A nossa idéia sempre foi essa, de encontrar um meio alternativo de fazer as coisas. E a gente não encontrou, porque não existe ainda. Um dia talvez exista. Mas a gente foi cedo demais e paciência.

Você vem falando que parou de escrever ficção, roteiros…
Não tenho idéia de continuar na ficção. Pra roteiro de cinema sem dúvida por esse problema aí, do dinheiro público, que eu não pego. E eu não tenho dinheiro próprio. Agora, por exemplo, tem uma diretora que quer filmar o meu último romance, “Contra o Brasil”, e eu vou ceder os meus direitos pra ela, grátis, porque eu não posso embolsar dinheiro do governo. Eu poderia pedir 60 mil reais pelos direitos, mas eu não vou me estraçalhar dessa maneira, de me acusarem depois de ser uma espécie de Cony (Carlos Heitor Cony), que fala uma coisa e faz outra. E eu não sou o Cony! Então, cinema, não. E livro, eu não tenho muito interesse nesse momento. E não tenho, sobretudo, tempo mental. Eu faço uma coluna semanal que me dá muito trabalho, e participo de um programa de televisão (Manhattan Connection, na GNT) que dá muito trabalho. E não sobra criatividade. Não sou tão brilhante assim. E mesmo as entrevistas – são repetições de tudo o que eu venho dizendo nesses últimos dias, porque eu não consigo inventar respostas diferentes. Meu talento é muito limitado, então eu tenho que aproveitar direito o pouco que tenho.

Você morou 14 anos na Itália, em Veneza. O que fazia por lá?
Eu vivia. Eu trabalhava lá. Eu estou na “Veja” há doze anos já, sou um dos mais antigos funcionários da casa. Comecei fazendo perfis. Fiz perfil do Gore Vidal, do Nelson Piquet, da Cicciolina, do Ivan Lessa… Depois acabaram as celebridades que eu tinha acesso, e aí eu comecei a fazer resenhas literárias. E em 1999 eu ganhei a coluna, que tem essa colaboração fixa e melhor remunerada. E é o que eu fazia como trabalho, além de escrever romances. Eu escrevi os meus quatro livros e os dois roteiros na Itália. Eu fiz na Itália o que eu sempre fiz e o que eu sempre vou fazer.

Você chegou a se formar?
Não me formei. Larguei a faculdade. Eu fiz um ano no Brasil e um na Inglaterra.

Por que largou?
Porque tinha coisa mais interessante fora da faculdade. Eu tinha muito livro pra ler. E os livros não eram os que eu estava estudando na faculdade. Ir à universidade só pra ganhar uma bibliografia não me pareceu motivação o suficiente. Achei melhor ficar em casa lendo, lendo, lendo. Foi o que eu fiz em Londres. Passei quatro anos lá, engordei dez quilos. E lia o dia inteiro. E quando não estava lendo, assistia críquete na televisão. Essa foi basicamente a minha formação.

Uma última pergunta: você se considera de direita? Essa definição aplica-se a você?
Não, não se aplica. Eu sou um sujeito que raciocina o meu país. Se esquerda é o Lula, ou seja, José Sarney, José Dirceu, José Genoíno etc., aí eu sou de direita, sem dúvida nenhuma. Outro dia o Genoíno tentou explicar pra nós o que era esquerda e direita. Ele falou que esquerda era “taxação progressiva”. Isto é, os EUA são de esquerda há mais de cem anos. O Bush é de esquerda, então. Taxação progressiva é isso aí, quem é mais rico paga mais. Que eu saiba não existe um único país no mundo que não existe taxação progressiva. O mundo inteiro é de esquerda. Uma discussão tão besta. Eu sou um tatcherista na economia. Quanto mais Estado você tirar, melhor.

O Paulo Francis dizia que “todo intelectual tende a ser de direita”…
Eu acho que todo intelectual, aperfeiçoando o que ele disse, tende a se contrapor à visão comum da época dele. A minha é uma época extremamente esquerdista. E todos os valores da esquerda são aceitos como se fossem verdadeiros. Mas no Brasil não existe esquerda e direita, no Brasil existe governo.

E quem adere ou não.
É, é isso. Existe o governo. Ou você faz parte do governo ou não faz. E normalmente todo mundo faz parte do governo, todo mundo tira uma casquinha, de alguma maneira. É assim.

TRECHO
“A burrice que nos acometeu desde a eleição de Lula terá de ser lembrada para sempre. Demos ao governo um crédito que nenhum governo pode ter. Por mais de um ano, ignoramos seu populismo ordinário, seus desvarios retóricos, seu empreguismo desavergonhado, seu fisiologismo ostentoso, seu descaramento ético, sua equipe indigente. Abdicamos estupidamente de nossa prerrogativa básica, que é vaiar e atirar ovos nos políticos. A convicção simplória de que todos os políticos são enganadores precisa ser restaurada urgentemente. Só ela pode estimular a criação de anticorpos na sociedade. Sem esses anticorpos, a democracia brasileira continuará incompleta, viciada, sujeita a surtos de histeria sebastianista igual à que acompanhou a vitória de Lula.”

“A Tapas e Pontapés”, de Diogo Mainardi, editora Record (208 págs., R$ 28,90)

Publicada originalmente na revista Semana 3 (ed. 27, dezembro de 2004)