Ronaldo e o ponto de desequilíbrio

Malcolm Gladwell tem um livrinho fascinante chamado “Ponto de Desequilíbio” (do qual escreverei mais em breve). Nele, o jornalista trata das epidemias comportamentais, mais especificamente de como se criam essas epidemias, qual o ponto de desequilíbrio por trás. O subtítulo do livro sintetiza: como pequenas coisas podem fazer uma grande diferença. O fósforo da capa resume ainda melhor: um simples fósforo pode causar um estrago gigantesco.

Mas tudo isso pra falar de Ronaldo Fenômeno, que, no jogo contra o Santos, no domingo, mostrou que é o melhor exemplo do “ponto de desequilíbrio” no futebol – esse esporte fantástico no qual um jogador pode fazer toda a diferença do mundo, em uma jogada inesperada e genial. Romário, na Copa do Mundo de 94, foi um exemplo disso: quem apostaria que aquele time, sem o baixinho, seria campeão do mundo?

Ronaldo mostrou que, ainda gordinho e fora da forma física ideal, é capaz de desequilibrar uma partida. Os dois golaços de canhota são a prova de que ele está acima de todos os atacantes do Brasil.

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Quem é o melhor do mundo?

Cristiano Ronaldo foi eleito nesta última segunda-feira o melhor jogador do mundo em 2008, prêmio que computa votos de todos os treinadores e capitães de seleções do mundo e entregue pela Fifa desde 1991, quando o ganhador foi o alemão Lothar Matthäus.

Gosto do futebol de Ronaldo: é veloz, chuta bem de fora da área, tem boa movimentação pelos dois lados do campo, além de ser bom cabeceador e driblador. Seu defeito era fazer muitas firulas nas pontas do campo, longe do gol. Quando passou a ser mais objetivo, o resultado apareceu. Na temporada passada, marcou 46 gols (42 pelo Manchester United e quatro pela seleção de Portugal), além das inúmeras jogadas e assistências para gol.

Além disso, seu time foi o campeão local (inglês), continental (Champions League) e mundial. Na Premier League e na Champions League, Ronaldo foi o artilheiro, com 31 gols (em 34 jogos) e 11 gols (em 14 jogos), respectivamente.

Só em termos de comparação: seus rivais mais badalados, Messi e Kaká, não conseguiram muita coisa com seus times. O Barcelona deixou escapar vergonhosamente o título espanhol para o Real Madrid e foi eliminado pelo Manchester nas semifinais da Champions. Já o Milan terminou o Calcio em quinto lugar, sem conseguir a classificação para o torneio intercontinental (onde foi despachado pelo Arsenal nas oitavas-de-final). Messi e Kaká podem até ter outras qualidades que o português não tem, mas na temporada passada não teve pra ninguém.

Eleger o melhor do mundo não é coisa fácil em futebol. Levam-se em conta muitos fatores, entre eles o fato de o time ter sido vencedor ou não na temporada (mas não só). Tivesse o Manchester caído perante o Chelsea (no inglês e na taça continental), Cristiano Ronaldo teria sido eleito o melhor do mundo? Talvez sim. Vale lembrar que quando Ronaldo Fenômeno foi eleito o melhor do mundo, em 1997, a Inter de Milão não ganhou grande coisa, apenas a Copa da Uefa.

E, sim, vamos lembrar que o português perdeu dois pênaltis na Champions League: um contra o Barcelona e outro contra o Chelsea, na decisão por pênaltis. Sortudo, ainda por cima.

Dunga e Maradona
Dunga e Maradona, ambos técnicos de seus países, votaram em Cristiano Ronaldo como o melhor, mas o que chama mais a atenção é o fato de não terem votado ou em Messi ou em Kaká – vale lembrar que a Fifa não permite que o técnico ou capitão votem em jogadores de suas seleções.

Dunga votou em 1. C. Ronaldo, 2. Fernando Torres (espanhol), 3. Arshavin (russo). Maradona foi de Maradona 1. C. Ronaldo, 2. Ibrahimovic (sueco), 3. Arshavin.

O veto de Maradona a Kaká talvez tenha até sentido: Kaká ficou boa parte do tempo machucado e realmente não brilhou. Mas não votar em Messi eu sinceramente não vejo explicação.

Fernando Torres fez sem dúvida uma boa temporada, com o título da Eurocopa (fez o gol da final), assim como Messi, que conquistou as Olimpíadas jogando muito – Dunga deve ter levado isso muito em conta na hora de votar.

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Notas futebolísticas

1
Dunga acertou na escalação do Brasil que entrou em campo contra o Chile, no último domingo. Temos sempre que dizer o quanto o ex-volante e técnico é medíocre, mas não se pode dizer que tenha feito bobagem neste último jogo.

Na defesa, fez o de sempre: dois zagueiros e dois laterais, que sobem só um pouquinho e revezados; no meio, mudou um pouco: jogou com dois volantes (em vez de três) e jogou com dois jogadores criativos, Diego e Ronaldinho Gaúcho, embora o ex-santista tenha ficado mais recuado e ajudasse na marcação, enquanto o ex-jogador do Barcelona subia mais e jogava na ponta-esquerda. No ataque, Luís Fabiano mais à frente e Robinho vindo de trás.

2
Dunga também acertou ao tirar Ronaldinho do time. Fiquei me perguntando se ele faria isso, mas teve coragem e fez. Palmas pra ele. Dá dó ver Ronaldinho jogar: não corre, não dribla, não dá um passe em profundidade. Precisa emagrecer e voltar a correr mais…

3
Dois destaques individuais na partida: Luís Fabiano e Robinho. O primeiro jogou muito bem, fazendo dois tentos e dando passe pro gol de Robinho, que costuma jogar bem com a seleção, mas peca em algumas jogadas e não tem chute forte. Aliás, se ele quiser ser o melhor jogador do mundo, como diz por aí, precisa fazer mais musculação nos cambitos e chutar forte. Aqueles chutinhos dele não são de nada.

4
Gilberto Silva deveria nunca mais jogar pela seleção (junto com Kleber). Josué ainda dá um caldo, rápido e cirúrgico em algumas roubadas de bola. Mas eu ainda acho que Hernanes será o grande nome dessa posição em pouco tempo, e não o super-estimado Anderson.

5
Lula fez a crítica certa à seleção, ou seja, que eles eram um bando de vagabundos que não correm quando perdem a bola e não mostram raça em campo. No domingo, o time jogou diferente. Precisa haver sempre essa pressão em cima pra mostrar raça? Bando de vagabundos!

Agora, não acho que Lula saiba mais de futebol do que Dunga. A mediocridade se equivale, nesse caso; tenho quase certeza.

6
Passada a turbulência, acho que Dunga será o técnico do Brasil na próxima Copa do Mundo. Infelizmente, a cada dia tenho mais certeza disso. Fazer o quê…?

7
Eu ainda acho que o melhor esquema tático para o Brasil é outro, um 3-5-2 – mas agora estou com preguiça pra escrever mais…

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