A crise nos EUA

Acho o liberalismo econômico um troço bem bacaninha. Tem muita gente por aí falando besteira, como se o “receituário neoliberal” tivesse levado à crise atual nos EUA.

Por outro lado, sou também favorável ao Estado. Não entro no Fla x Flu que muitos colocam, do tipo “Ou Estado ou Mercado”.

O Estado precisa existir, é óbvio isso, mas muito mais como regulador. Os críticos que estão falando besteira acreditam que os liberais pregam apenas o “mercado livre”, zero de Estado. Não é bem assim.

O Estado tem de regular o mercado. Tem de haver regras claras para o jogo. O mercado não se regula sozinho, em muitos dos casos. Há corrupção, lobbies, falcatruas etc. e tal.

E sobre a ajuda do Fed aos quebrados, me parece meio óbvio que isso tem de acontecer. É essa ajuda – com dinheiro público, sim – ou um possível efeito dominó e quebradeira geral. E quem perderia mais, no fim das contas, seriam os cidadãos, pois não – haja vista que o setor é fundamental para o bom funcionamento da economia em geral.

É fácil criticar a ajuda. “Ah, os bancos falidos que se fodam”. Sim, concordo; muitos perderão muita grana, mesmo com a ajuda. Mas seria pior sem – e pra todo o mundo, literalmente. Até os chineses (na teoria, bem na teoria, comunistas) estão torcendo para que o mercado americano se recupere.

Ainda no Estado x Mercado
Prefiro muito mais uma empresa privada prestando serviços para mim do que um órgão estatal que atue em monopólio. No setor privado, há metas, há concorrência, há maior preocupação em prestar bons serviços (ainda que isso nem sempre aconteça).

Existem exceções? É claro que sim. Isso não é regra. Só para mentes binárias é que isso existe. Eu mesmo sou cliente do Banco do Brasil, por exemplo. Agora imagina se apenas o Banco do Brasil pudesse atuar no mercado. Seria uma tragédia.

Sr. Boo, não vai me vá bater pesado em mim, ok? Educação, classe e gentileza nos possíveis comentários. Hahah.

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Salve o banco

Cristalino o Carlos Alberto Sardenberg no Estadão de hoje:

“Uma reação esperada sustenta que não faz sentido o governo colocar dinheiro público para salvar banqueiros. Outra diz que esse tipo de intervenção mostra que os mercados não podem ser deixados soltos, que o governo precisa intervir sempre, porque senão o capitalismo come o capitalismo.

Dois equívocos.

A operação do Fed não salvou os donos dos bancos. Salvou o banco, isto é, o dinheiro que as pessoas e as empresas tinham lá depositado e aplicado. Salvou também os credores do banco. Os acionistas perderam. Foram praticamente obrigados a vender suas ações a US$ 2 cada uma, um preço de liquidação. No ano passado, antes da crise, a ação do Bear Stearns chegou a ser negociada a US$ 169.

Além disso, a intervenção, na verdade, salvou todo o sistema bancário. Se o quinto maior banco do país, um conglomerado internacional, fosse à lona em conseqüência de uma corrida de depositantes e investidores para sacar seus recursos, instalar-se-ia uma crise de confiança de tal ordem que a atitude mais sensata de qualquer pessoa seria ir a seu banco, qualquer banco, e sacar seu dinheiro. Como não há dinheiro para todos, bancos quebrariam e milhões perderiam suas poupanças. Por isso, os banqueiros centrais, mundo afora, não pensam um minuto para salvar um banco quando existe a menor ameaça de uma quebradeira de todo o sistema. Esta falência imporia um tal dano à economia e à sociedade que justifica o custo da operação.

Sim, toda esta argumentação vale para o brasileiro Proer, que muitos analistas internacionais consideram uma das melhores ações de saneamento de um sistema financeiro nacional. Aliás, alguns disseram que a intervenção do Fed foi, assim, digamos, meio tosca. Foi, porém, o que dava para fazer nas circunstâncias.”

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Estatais

Eu, num passado bem recente, era uma pessoa cheia de dogmas. Eu era jovem e idealista. Não concordava em ver “meu” país ser “vendido” a “preço de banana” por aí, que coisa. Eu acreditava que o Estado devia ser o dono de 100% de “nossas” riquezas. Eu acreditava que, no Brasil, um governo poderia ser ético, honesto e não usar as estatais em benefício próprio. Eu cheguei a acreditar que políticos queriam dirigir as estatais apenas pelo bom salário que receberiam. Vê se pode.

Essa lengalenga toda porque eu queria falar desse negócio de plebiscito da reestatização da Vale do Rio Doce, uma idéia tão sem cabeça, que me deu preguiça danada, mas eu resolvi mesmo assim tocar no assunto.

Em primeiro lugar, os que defendem essas estrovengas estatais acreditam piamente que isso seria melhor para o Brasil, pois uma estatal estaria interessada primeiro no consumidor, depois no lucro – ou melhor, uma estatal não precisaria ter lucro nenhum, podendo arcar até com prejuízos. Aí começa o problema: sem lucro, há sucateamento; com sucateamento, quem se dana é o consumidor.

Segundo: as estatais são fontes excelentes para os políticos arrumarem recursos para as eleições. Só não enxerga isso quem tem a visão embaçada por uma ideologia muito chinfrim. As estatais sofrem uma influência tremenda dos que estão no poder. São usadas por eles. É isso o que se quer? Quando você vê Lula dando a direção de Furnas ao PMDB (Luiz Paulo Conde), não é porque ele achou que o cidadão vai dirigir bem a empresa. Ele deu a direção porque foi pressionado a fazer isso. E aceitou a pressão. É assim que funciona – o presidente precisa amealhar apoios.

Quanto mais o Estado brasileiro se livrar dessas estatais pesadas, morosas, que só sugam dinheiro, melhor. Menos pressão e menos poder o Estado vai ter para fazer jogos sujos, chantagens e lobbies. É tão difícil perceber isso? Agora, obviamente eu não estou querendo dizer que tudo deva ser privatizado. O Estado tem um papel fundamental na vida de um país. Deve(ria) prover saúde, educação básica, cuidar das ruas, estradas, dar segurança, saneamento básico etc. a todos

Agora, queria citar alguns dados sobre a Vale. Num artigo no Estadão de domingo passado, Suely Caldas mostra alguns dados impressionantes:

Em 1997, ano da privatização, a empresa pagou US$ 110 milhões em impostos e dividendos. Em 2006, o número foi 23 maior: US$ 2,6 bilhões. De 97 a 2006, o número de funcionários aumentou 5 vezes, de 11 mil para 56 mil. As exportações triplicaram, de US$ 3 bilhões para US$ 9 bilhões. A produção passou de 100 milhões de toneladas para 250 milhões (ano).

Um número que eu achei impressionante: em 54 anos de controle estatal, a Vale investiu US$ 24 bilhões. De 2001 a 2006, ela investiu US$ 44,6 bilhões. O dobra, praticamente, em 20% de tempo. Mais: o Estado recebe quantias 20 vezes maiores hoje do que quando a empresa era estatal.

Então, porque a grita dos reestatizantes?

UPDATE

De Lauro Jardim na coluna “Radar” da VEJA deste fim de semana:

“O senador Edison Lobão (DEM/MA) votou a favor de Renan Calheiros, apesar de o seu partido ter fechado questão em torno da cassação. Beleza. Nos dias que antecederam a votação no Senado, Lobão recebeu uma notícia que amoleceu mais ainda seu coração com grossas artérias governistas: seu filho, Marcio, foi indicado pelo Banco do Brasil para presidir a Brasilcap, empresa de títulos de capitalização. Marcio, aliás, é sócio do pai em quatro emissoras de TV no Maranhão”.

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